25 junho 2011

nascido a 25 de junho de 1903 , George Orwell







George Orwell: passada a Guerra Fria, a sua obra começa a ser reavaliada
por Milton Ribeiro

Há exactos 108 anos, nascia na cidade de Motihari, Bengala, região da Índia, o escritor e jornalista George Orwell (1903-1950), pseudónimo de Eric Arthur Blair. O pai era um funcionário da administração do império britânico. No anos seguintes, o menino Eric já vivia na Inglaterra, onde estudou, apenas retornando ao exterior em 1922, para assumir um posto na Polícia Imperial Indiana em Burma (ou Birmânia, actual Myanmar). Em 1927, transferido para outra localidade de Burma, contraiu dengue e retornou a Inglaterra. Imitando o seu ídolo Jack London, Blair começou a frequentar as favelas de Londres. Depois, segundo as próprias palavras, passou a viver como um nativo do seu próprio país, isto é, tornou-se um mendigo.

A influência de Orwell na cultura ocidental popular e política é notável. Até hoje, quando o Brasil assiste a um programa chamado Big Brother, poucos se dão conta de que citam implicitamente o omnipresente Grande Irmão do romance 1984. Também o neologismo “orweliano” é utilizado em muitas línguas para significar algo contrário à liberdade. E, no Brasil, a novela alegórica Animal`s Farm (O trinfo dos porcos) serviu de base para Chico Buarque escrever a sua “novela pecuária” Fazenda Modelo, de 1974. A sua popularidade é imensa, tanto que, somados, 1984 e O trinfo dos porcos venderam mais cópias que os dois livros mais vendidos de qualquer outro escritor do século XX.

A popularidade inglesa de Orwell começou antes da produção das obras mais conhecidas. Começou com o lançamento, em 1936, do romance O vil metal.





O livro conta a história de um grande personagem-símbolo, Gordon Comstock, um publicitário que abandona a carreira para lutar contra o dinheiro. Na direcção inversa do senso comum, Gordon procura viver cada dia com menos dinheiro, chegando a evitar ganhá-lo. Só que ele logo conclui que o dinheiro participa de todos os aspectos e parece preencher todos os espaços da existência humana. Não adianta ser belo, inteligente, sensível ou artístico se não tiver dinheiro. O livro, escrito por um jovem e indignado Orwell, é visceral. Nenhuma surpresa para quem vivera como mendigo.

George Orwell de volta a Inglaterra
Em 1938, veio outro excelente livro, Homenagem à Catalunha. Trata-se do relato de Orwell sobre a sua participação numa milícia de tendência trotskista na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos contra Francisco Franco e aliados, Mussolini e Hitler. Acabou por levar um tiro no pescoço que lhe danificou as cordas vocais. Desde aquele momento, a sua voz ficou sensivelmente mais aguda.

Socialista mas desencantado com o Estalinismo, dedicou os últimos anos de vida a denunciá-lo. Publicado em 1945, com mesma impressionaste repercussão que teria logo depois 1984, O Triunfo dos Porcos serviu para acirrar o debate ideológico em torno do comunismo real. Com sua pequena novela alegórica, Orwell acabou por dividir o mundo intelectual. Como era típico da Guerra Fria, havia os que achavam que o autor traía a esquerda, o socialismo e o comunismo e, do outro lado, os pró-EUA, que tratavam de divulgar o livro como grande obra. O intento de Orwell era atacar a política Estalinista que, na sua óptica, teria traído os princípios da revolução russa de 1917. O uso da obra por pessoas, entidades e governos de direita sempre foi combatida pelo autor, sem sucesso.

A tese antiestalinista de 1984 foi utilizada também para caracterizar o nazismo
Quatro anos depois, Orwell lançou um segundo romance que também tinha como mote o Estalinismo, só que agora levado ao paroxismo. Num futuro distante, 1984, o cidadão Winston Smith decide rebelar-se contra um regime que tudo domina. Todos são governados por alguém denominado Grande Irmão, o “Big Brother”. Preso e torturado com requinte de maldade — Winston tinha fobia de ratos e, na prisão era obrigado a compartilhar uma gaiola com eles — , ele cede e, em pouco tempo, é considerado apto dentro de um programa de recondicionamento mental. Por outras palavras, de uma lavagem cerebral. Desta forma, Winston torna-se um cidadão exemplar. Trata-se, em suma, de um romance de terror. Esta segunda agressão ao Estalinismo foi o final de um longo drama moral e ideológico, marcando em definitivo seu rompimento com os comunistas.

Orwell morreu em Londres, de tuberculose, aos 46 anos de idade. No seu túmulo, há um epitálio simples: “Aqui jaz Eric Arthur Blair, nascido em 25 de Junho de 1903, falecido em 21 de Janeiro de 1950″. Não há qualquer referência a seu célebre pseudónimo.

Agora, longe do clima dos anos 40 e 50, a obra começa a ser reavaliada na Inglaterra. Diversas publicações se debruçaram sobre seus livros recentemente. A sua obra-prima volta a ser O Vil Metal. O triunfo dos porcos, torna-se uma brilhante alegoria contra qualquer tipo de ditadura e seus relatos sobre Myanmar — do livro Dias na Birmânia — e a Guerra Civil Espanhola voltam a ser modelos de bom jornalismo. Orwell ainda é famoso por 1984, mas, talvez isso mude.


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Sobre o seu trabalho George Orwell disse: “Quando me sento para escrever um livro, não digo para mim ‘vou produzir uma obra de arte’. Escrevo porque existe alguma mentira para ser denunciada, algum fato para o qual quero chamar a atenção, e penso sempre que vou encontrar quem me ouça.”

2 comentários:

Eric Blair disse...

Muito obrigado, não precisavas ... ahahahah

Cristina disse...

claro que precisava, com um amigo tãi distinto! :)))