06 fevereiro 2011

ora aqui estão discussões que nem nos apercebemos que existem,


porém, muito pertinentes. Talvez porque Portugal -valha-nos isso!-, é dos países da Europa em que se come mais peixe fresco e de todas as espécies e tamanhos. Aí está uma coisa em que ninguém nos bate: no saber comer. Sem favores.
Tenho seguido com algum interesse, nos últimos anos, a estrondosa revolução alimentar que se tem operado no Reino Unido a partir de Chefes de Cozinha com perspectivas muitos diferentes e inovadoras em relação à velha e desenxabida cozinha Inglesa. E sigo, na maioria das vezes, claro, pela blogosfera, que é o espelho fiel do que está in na sociedade. Mais uma vez.

A força dos chefs
Thomas Pappon 15:14, sexta-feira, 28 janeiro 2011 BBC

Os chefs estão com tudo e não estão prosa. Não contentes em ensinar-nos a cozinhar e em viajar por aí desvendando segredos da culinária, eles cada vez mais se aventuram em ambiciosas campanhas para mudar hábitos sociais ou mesmo leis.

Pelo menos aqui, na Grã-Bretanha. Jamie Oliver foi pioneiro nisso, com a série de TV em 2005 que provocou um grande debate na mídia britânica sobre alimentação nas escolas e acabou causando uma revolução nas cantinas.

Agora foi a vez de Hugh Fearnley-Whittingstal, que foi matéria de capa no Independent em novembro passado quando lançou uma campanha, Fish Fight (Luta de Peixe), para tentar inibir a prática dos discards (descartes) na indústria pesqueira.

A campanha visa conscientizar o consumidor britânico de que mais da metade dos peixes capturados no Mar do Norte são devolvidos mortos ao mar. A razão aparentemente está em regras de pesca da União Européia, que proíbem barcos pesqueiros de descarregar determinadas espécies, o que os obriga a jogá-los de volta ao mar.
Os pescadores não tem controle sobre o que pescam, e o problema é que só parte do que cai na rede serve para o comércio – pelo menos é o que a indústria pesqueira diz.

Fearnley-Whittingstal diz que estamos diante de um desperdício insano de milhares de toneladas de peixes, crustáceos e outras criaturas marinhas que poderiam tranquilamente ser aproveitadas.

A campanha age em duas frentes. Uma recolhe assinaturas em um abaixo-assinado que será encaminhado à Comissão de Assuntos Marítimos e Pesca da União Europeia, fazendo sugestões e pedindo mudanças nas regras pesqueiras do bloco.
No momento em que este post foi publicado, a campanha reunia mais de 625 mil assinaturas.
A outra frente invadiu nossas TVs britânicas como uma blitzkrieg nas primeiras semanas de janeiro.
Com a ajuda de colegas como Gordon Ramsey, Heston Blumenthal, Jamie Oliver e outros superchefs, Fearnley-Whittingstal comandou uma série de programas mostrando receitas e incentivando o público consumidor a substituir as espécies mais manjadas (e ameaçadas) como bacalhau, haddock e atum por outras das quais há fartura nos mares da região - e que seriam injustamente subapreciadas, coisas como dab (espécie de linguado), cavalinha, sardinhas, coley (da família do bacalhau), whiting, sprats (tipos de arenque), pouting (conhecido em Portugal como faneca), gurnard, mariscos e caranguejos.

Quem mora aqui e compra peixe sabe do que estou falando. Inglês gosta mesmo de três ou quatro tipos de peixe e não dá bola para o resto. Jamie Oliver contou que mais de 70% dos alimentos marinhos consumidos no país são importados – e que mais de 70% do pescado capturado no país é exportado, em especial para países vizinhos como Espanha e França. Ou seja, eles gostam do que não pescam e não gostam do que pescam.

Na semana que se seguiu à blitzkrieg dos chefs, choveram matérias nos jornais dizendo que as vendas de peixe aumentaram drasticamente (o Mark & Spencer disse quer foi a semana de maior venda de peixes na sua historia), assim como a procura generalizada pelos tipos e espécies promovidos nos programas – o que dá um a idéia do mencionado poder dos chefs.

Pessoalmente, acho que o segredo disso está na credibilidade. O público gosta deles, sabe que entendem do assunto e acredita que sua motivação em campanhas como essa é positiva e sincera.
Eu parei de me surpreender com a força dos mestres-cucas, que é de dar muita inveja a políticos. Mas ainda acho que se trata de um fenômeno essencialmente britânico

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