04 dezembro 2010

"A ideia de que a desigualdade é um reflexo das diferenças de mérito não pode razoavelmente ser aplicada a crianças"


Segundo o relatório 'Children Left Behind', elaborado pelo Centro de Pesquisas Innocenti, a taxa de pobreza infantil em Portugal é de 21,2 por cento antes da intervenção estatal e de 18,7 por cento após a atribuição de ajudas sociais.
Logo a seguir vem a Espanha - com 18,5 e 17,2 por cento respectivamente -, enquanto a Finlândia tem a taxa mais reduzida, graças aos fortes apoios sociais, que reduzem para apenas 5,2 por cento o que seriam 15,2 por cento de crianças pobres.
O relatório 'Children Left Behind', que engloba dados de 21 dos 33 países da OCDE com dados estatísticos recolhidos entre 2004 e 2006, mostra que sem a intervenção do Estado todos teriam taxas de pobreza infantil superiores a dez por cento.
Nem tudo são más notícias para as crianças portugueses: o país encontra-se em terceiro no que toca ao bem-estar sanitário (a Holanda lidera, seguida da Noruega)

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A pior classificação de Portugal ocorre no bem-estar material, onde ocupa a 16.ª posição. E a pobreza infantil é mais do que pobreza de rendimento. Tem também a ver com oportunidades e expectativas, recursos de educação e cultura, habitação, cuidado e tempo parental.
"A ideia de que a desigualdade é um reflexo das diferenças de mérito não pode razoavelmente ser aplicada a crianças", sublinham os autores. "Poucos negarão que as circunstâncias iniciais de uma criança estão além do seu controlo. Ou que essas circunstâncias têm um profundo efeito na sua vida presente ou futura. Ou que crescer na pobreza acarreta um risco acrescido de piores níveis de saúde, de desenvolvimento cognitivo, de resultados escolares ou de mais baixos conhecimentos e aspirações e, eventualmente, de menores rendimentos na vida adulta, o que ajuda a perpetuar as desvantagens de uma geração para a seguinte."

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Esta é a realidade infantil em Portugal, e é a realidade de uma grande parte da população. Ou seja: em Portugal existe, de facto, um sistema de saúde de fácil acesso no sentido de que qualquer pessoa, adulto ou criança, quer tenha feito descontos ou não, tem o direito de ser assistido e de consumir TODOS os recursos necessários ao seu tratamento mesmo que nunca tenha trabalhado na vida, coisa de que, como se sabe, poucos povos se podem gabar. O problema é lá fora. É quando de passa para a rua e se espera alguma continuidade destes cuidados que quase tudo falha. Trata-se a doença aguda, mas falta o dinheiro para os tratamentos crónicos, para as terapias complementares, para as fraldas, para a comida, para o infantário, para os agasalhos, para o aquecimento em casa, para o bem estar mais elementar: fisico, social e psicológico. Mas todos têm acesso a um médico, a um sistema de saúde. É mais ou menos...... como convidar alguém para jantar e depois não ter comida para oferecer.
Mas isso, não era preciso nenhuma OCDE para sabermos.

1 comentário:

A.J.Faria disse...
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