06 setembro 2010

Alagamares- O 5 de Outubro de 1910 em Sintra

Por
Fernando Morais Gomes

Com o aproximar das comemorações do centenário da República será útil saber como foi a implantação da mesma em Sintra, e algo mais sobre uma pessoa que ao acto esteve intimamente associada:Tomé de Barros Queiróz

Com o acelerar dos acontecimentos que em 4 de Outubro de 1910 levaram às mortes do Almirante Cândido dos Reis e do dr Miguel Bombarda, alguns oficiais sobretudo da Marinha, e sob o impulso do hoje esquecido Ladislau Pereira, iniciaram o bombardeamento a partir do Tejo do Palácio das Necessidades, palácio real da época, embora o rei na altura estivesse em Mafra. Ao mesmo tempo, na Rotunda, um milhar de revoltosos mobilizados pela Carbonária e conduzidos pelo oficial de Marinha Machado dos Santos, lançava a ofensiva, que era reprimida pelas forças monárquicas estacionadas no Rossio. Foi com a mediação do embaixador alemão em Lisboa que os acontecimentos se precipitaram. Tendo este descido a Avenida acompanhado de Machado dos Santos para parlamentar durante uma trégua de uma hora com as forças monárquicas, o povo, que temeroso via os acontecimentos das varandas e esquinas próximas, julgando ser a bandeira branca ostentada pelo embaixador ao lado de Machado dos Santos o sinal da rendição monárquica, logo se juntou ao grupo às centenas, precipitando a rendição monárquica. Logo se reuniu um grupo que designou Teófilo Braga Presidente do Governo Provisório, enquanto Eusébio Leão se dirigia à varanda da Câmara Municipal de Lisboa para solenemente proclamar a República.
Tais proclamações ocorreram um pouco em todo o país, à medida que se conhecia o sucesso do movimento.
Em Sintra, tal também aconteceu no dia 5 de Outubro, tendo o directório do Partido Republicano Português designado Tomé de Barros Queiróz, figura já de destaque na época e ligado a Sintra, onde tinha um chalet, para proceder a tal proclamação.
Barros Queiróz havia chegado a Sintra em meados de Setembro, vindo de férias nas termas, e aqui recebe a notícia a 4 de Outubro da morte, assassinado por um doente mental, de um dos chefes da revolta, o Dr Miguel Bombarda. Confirmado o sucesso do movimento militar, Barros Queiróz é convidado pelo PRP para proclamar a República em Sintra em nome da Junta Revolucionária, tendo sido designados para o acompanhar nesse momento histórico o jornalista João Chagas , bem como José Barbosa e Malva do Vale.


Foi assim que um grupo de apoiantes do novo regime se concentrou junto com Barros Queiróz num local onde hoje fica a Praça Afonso V, na Portela de Sintra, para esperar os outros enviados do PRP. Alguns deles, armados em milícias populares, inclusive já desde alguns dias antes guardavam residências de políticos e figuras destacadas do regime monárquico, entre as quais a de João Franco, que veraneava em Sintra com a família real, e que tinha sido um dos protagonistas do odiado governo que em 1908 custou a vida ao rei D.Carlos,e que agora, paradoxalmente, era protegido na sua pessoa e bens pelos revolucionários, para evitar pilhagens e actos de vandalismo. Entre os que protegeram João Franco em Sintra contava-se o filho de Barros Queirós, Daniel, com 19 anos na altura, sendo que João Franco, apesar do reviralho que se advinhava, mandou servir comida e café aqueles que se preparavam para alterar o regime que ele servira.

Estavam os populares na Portela, pois, quando chega um dos poucos carros que havia naquele tempo,ostentando uma bandeira verde rubra, ao que os populares responderam com vivas à República.Nessa viatura vinha uma eufórica senhora de apelido Quaresma Val do Rio Barreto.

Passado um tempo, uma outra viatura, aberta, transportava duas figuras vestidas de escuro . Eram a rainha D.Amélia e uma camarista, que vindas da Pena, se dirigiam a Mafra a juntar-se ao deposto rei D.Manuel, de onde partiriam posteriormente em direcção a Inglaterra. Barros Queiróz, reconhecendo a rainha, tirou o seu chapéu, e silenciando os vivas à República, saudou cortesmente a real figura, no que foi acompanhado pelos demais. Revoluções à portuguesa, dirão alguns…
Finalmente chegou o grupo vindo de Lisboa, e todos se dirigiram à varanda dos Paços do Concelho, os actuais, que haviam sido inaugurados um ano antes, em 1909, e proclamaram solenemente a República Portuguesa, tendo na altura sido anunciados Domingos Formigal de Morais como presidente da Câmara Municipal de Sintra e Gregório Casimiro Ribeiro como administrador do concelho. Todo o dia foi de festa em Sintra, tendo uma banda de música percorrido a vila em clima de euforia júbilo.

QUEM FOI BARROS QUEIRÓZ

Tomé José de Barros Queirós exerceu os cargos de deputado, Ministro das Finanças, Ministro da Instrução Pública e Presidente do Conselho de Ministros. Foi membro da Maçonaria.
Nasceu em Quintãs, Ílhavo, filho de modestos lavradores. Veio muito cedo para Lisboa, começando a trabalhar aos 8 anos de idade como caixeiro numa casa comercial. Apenas na década de 1890 conseguiu matricular-se na Escola Elementar de Comércio de Lisboa.
Em 1888 tornou-se militante do Partido Republicano Português, ascendendo rapidamente a lugares cimeiros na direcção daquele partido. Manter-se-ia sempre no campo ideológico dos republicanos liberais, militando nos diversos partidos que ocuparam aquela região do espectro ideológico.
Envolvido nas lutas operárias apoiadas pelos republicanos, foi um dos promotores da criação da Associação dos Caixeiros Nocturnos de Lisboa, ligando-se por essa via à imprensa, sendo fundador de A Voz do Caixeiro e colaborando no periódico O Caixeiro.

Eleito em listas republicanas foi, entre 1908 e 1911, presidente da Junta de Freguesia de Santa Justa e vereador da Câmara Municipal de Lisboa. Como referido, foi ele quem proclamou a República em Sintra em 5 de Outubro de 1910.Representou Sintra na Assembleia Constituinte que elaborou a Constituição de 1911, ao ser eleito deputado por Torres Vedras nas primeiras eleições após o 5 de Outubro, pois esse círculo englobava Torres Vedras, Lourinhã, Sintra e Cascais, entre outros locais, tendo obtido 7609 votos.
Com a cisão do Partido Republicano Português após a proclamação da República Portuguesa, integrou o Partido Unionista, onde militou entre 1911 e 1919. Foi também secretário-geral e director-geral da Fazenda Pública, cargo em que foi o principal autor da reforma tributária de 1911.

Como deputado por Torres Vedras, no mandato de 1911 a 1915, foi escolhido para vice-presidente da Câmara dos Deputados, apresentando então um parecer, à época considerado excepcional, sobre a Lei de Meios de 1912-1913 (o orçamento do Estado à altura).
Em 1912 iniciou-se na Maçonaria, na loja Acácia, de Lisboa, adoptando o nome simbólico de Garibaldi.
Na sequência da revolução de 14 de Maio de 1915, aceita o lugar de Ministro das Finanças, cargo que exerceu até 18 de Junho de 1916.
Mantendo-se na actividade política, já em período de degenerescência da Primeira República voltou ao Governo no período entre 24 de Maio e 30 de Agosto de 1921, como presidente do Conselho de Ministros (o título do Primeiro Ministro da época), acumulando com a sua antiga pasta das Finanças. O seu curto mandato à frente do governo português ficou marcado pela profunda crise financeira do Estado e por uma tentativa desesperada de recorrer ao crédito externo, através da contracção de um empréstimo de 50 milhões de dólares na América. Este empréstimo, anunciado como salvador pelo líder republicano Afonso Costa, acabou por não se materializar.
Em 1922 foi eleito deputado pelo círculo açoriano da Horta, reingressando nesse mesmo ano pelo círculo de Lisboa, mantendo-se no parlamento até 1924.

A partir de 1923 passou a militar no Partido Nacionalista. Faleceu em Lisboa a 5 de Maio de 1926, já em pleno ano final da Primeira República Portuguesa de que fora um dos fundadores.

BARROS QUEIRÓZ EM SINTRA
A ligação de Tomé de Barros Queiróz a Sintra vinha já de antes do 5 de Outubro, pois aqui adquiriu um chalet na antiga avenida Alda, no final da actual Av.Heliodoro Salgado, onde tinha por vizinho Henrique Santana, pai do grande actor Vasco Santana, que contava na altura 12 anos, e vivia com uma senhora espanhola chamada D.Pepa. Sendo a casa de Barros Queiróz de 6 divisões e a de Henrique Santana de 12, e tendo Barros Queiróz 4 filhos, fizeram uma permuta de casas, instalando-se Barros Queiróz no popularmente designado “Chalet Nabo” pela forma de nabo em que terminava a cúpula aí construída precedida duma escada de caracol. Nesse local se realizaram muitas tertúlias e encontros.

Em 1913, sendo Estevão de Vasconcelos Ministro do Fomento, intercedeu Barros Queiroz para o arranjo urbanístico do local onde hoje está o jardim da Correnteza.
Depois da sua morte em Maio de 1926,a Câmara Municipal de Sintra presidida pelo então presidente da Comissão Administrativa, capitão Craveiro Lopes (futuro Presidente da República)inaugurou uma rua com o seu nome, no 5 de Outubro de 1926,cerimónia que contou com muitos vultos nacionais bem como locais, dos quais se destacavam o dr Virgílio Horta e Eduardo Frutuoso Gaio.
Perto dos 100 anos da República Portuguesa, uma figura para Sintra recordar.

O PERÍODO DA REPÚBLICA EM SINTRA
O período da I República em Sintra seguiu as passadas do resto do país. Proclamada na Vila, no edifício onde hoje se situa a Junta de S.Martinho, foram 16 anos marcados pelo domínio do Partido Democrático - PRP- aqui e ali desafiados pela conservadora Lista Regional, nas freguesias rurais, que chegou a ganhar as eleições em 1922.
O primeiro presidente da Câmara depois de 5 de Outubro foi Fernando Formigal de Morais, filho do fundador da Escola do Morais, e era afecto ao Partido Democrático. Nas eleições de 1913 o centro mais afecto ao Partido Democrático era Colares, e à Lista Regional, Montelavar, onde se concentravam os industriais mais conservadores.
Até 1919 o PRP foi dominante, sendo as suas figuras de maior relevo José Bento Costa, José Simões e Torcato Pardal Monteiro, entre outros, destacando-se na Lista Regional Virgílio Horta maçon e pró-monárquico. e José Antunes dos Santos, conhecido capitalista que praticava a "compra" de votos em S.João das Lampas. Em 1925 estavam inscritos 2943 eleitores, dos quais 6O8 em Belas,355 em Colares e 364 em S.Martinho, tendo sido presidente do Senado(hoje Assembleia Municipal) o candidato da Lista Esquerdista Ribeiro de Carvalho.
Depois do 28 de Maio muitas destas vozes foram silenciadas, tendo os afectos à Lista Regional transitado em grande parte para a União Nacional. Mas a partir daí as eleições deixaram de ser democráticas e o poder local esmoreceu. Relevo nesse período de 1910-26 para a actividade da loja maçónica Luz do Sol, de que era venerável o "médico dos pobres",Gregório de Almeida, e a que pertenceram Virgílio Horta e José Alfredo Costa Azevedo.

Sem comentários: