04 maio 2010

não só porque é realmente brilhante


mas porque um texto como este deve estar à mão de todos os que gostam de futebol. E também por egoismo: o link não me chega, quero meeesmo tê-lo aqui. Inteiro. :)

Do Maradona, via Besugo, a pedido da mesma família.

"Consegui, finalmente, ver pela segunda vez o Barcelona - Inter de Milão de quarta-feira passada, e, se deus quiser, hei-de ver uma terceira. Qualquer receio de perceber o que é que se passou em campo ficou imediatamente arredado do relvado das possibilidades quando, aos 5 minutos, o Pedro Rodriguez, tido por todos menos por mim como um grande jogador (é um jogador esperto) tentou ultrapassar o Maicon. Há coisas estranhas no futebol, mas nenhuma mais parva que tentar passar pelo Maicon, o equivalente a ultrapassar uma reformada na bicha para um autocarro dos Transportes Sul do Tejo. Quando se chega ao extremo de se tentar passar pelo Maicon é porque alguma coisa está a correr mal; e quando, aos 5 minutos, já tudo está a correr tão mal ao ponto de o jogador mais esperto da equipa querer passar pelo Maicon, o melhor, o ideal, será abrandar e reformular. Mas o Barcelona é uma equipa sem tempo para pensar, tão ocupada que está a passar. O problema das pessoas que, até ao Chelsea do ano passado e ao Inter destas duas últimas semanas, defrontaram o Barcelona é que também não pensam enquanto o Barcelona não pensa: a circulação de bola absorve qualquer intenção de reflexão, o fluxo tranforma todos os jogadores em heraclitos no meio de rios imaginariamente eternos de mudança, mas no caso nem conseguem o discernimento de chorar em luto pela impermanência das coisas do mundo, da bola num local concreto. A estratégia de Mourinho no jogo da primeira mão é ainda hoje um completo mistério para mim, o que tem a vantagem de que pelo menos não fico com aquela sensação de incompreenção profunda dos acontecimentos: uma pessoa só pode não perceber aquilo que lhe foi revelado, daí que a posição agnóstica face à presença ou ausência de Deus entre nós seja a mais estúpida de todas as posições. A estratégia de Mourinho para o jogo desta quarta-feira foi, pelo contrário, perfeitamente clara e evidente, até porque ele a explicitou não sei onde: o Inter optou por não ter a bola. Não é, parece-me, aquela visão simples do "contra-ataque", da "contenção" ou do "catenaccio". O objectivo dessas tácticas é ter a bola no momento mais perigoso para o adversário, ou seja, busca-se o erro durante o processo atacante, quando a recomposição é mais dificil de se obter em tempo útil. O que Mourinho sonhou para este seu jogo não foi bem isso: Mourinho, mais do que não desejar que a sua equipa tivesse a bola, queria que a sua equipa nem sequer a desejasse, um nirvana futebolístico caracterizado pelo despojamento estóico marco aureliano. A teoria é a de que uma equipa sem bola muito dificilmente sai da posição táctica definida como ideal para determinado jogo. Ora, como disse Mourinho, o Barcelona baseia o seu jogo na busca paciente de pontos de desarrumação nos adversários, que costumam ser um de dois: as faixas laterais, exploradas pelo Daniel Alves e o Maxwell (ex: Arsenal), ou o centro do terreno, explorado pelo Messi (ex: Saragoça). O peso da espera cai nos ombros do Xavi e do Keita (e do Iniesta, as melhoras), e foi sobre estes dois que a indiferença do Inter pela bola começou a causar estragos no Barcelona: não é tanto que eles não fossem capazes de estar ali três legislaturas inteiras a trocar a bola, mas a percepção que tanto o Xavi como o Keita tiveram de que o Milito e o Eto'o não corriam atrás do objecto de couro, mas apenas deles próprios, como pessoas, num inético mas escrupoloso projecto de fulanização táctica. A marcação homem-a-homem, nas suas variadas formas, determina que o defensor carregue sobre homem da bola por forma a que a sua acção não tenha continuidade. Ora, a perseguição que os jogadores do Inter faziam aos jogadores do Barcelona tinha como principal objectivo que os jogadores do Barcelona fizessem precisamente aquilo que eles queriam, isto é, passar a bola em excelentes condições ao seu companheiro para que o mesmo faça decorrer a jogada exactamente como o Mister Guardiola ensina dos treinos. O génio de Mourinho residiu no feito de ter conseguido fazer com que a primeira jogada do Barcelona durasse 82 minutos, e depois foi só uma questão de aguentar com os nervos. O Pedro Rodriguez percebeu que alguma coisa de mal se estava a passar quando o Xavi lhe passou a bola e o Maicon, em vez de cortar para o lançamento lateral, lhe deu a linha para ele correr e centrar; o Pedro, habituado ou a estar já completamente sozinho e com o adversário desposicionado, ou a que quem quer que o marque evite que ele faça o que quer, tentou cortar para dentro à procura de uma dificuldade, um projecto que o Maicon se viu forçado frustar roubando-lhe a bola de devolvendo-a imediatamente ao Xavi para que ele mudasse de flanco tal como o Mister Guardiola ensina nos treinos. Pedro não percebeu o que se passou, mas teve um bom instinto. Xavi, esse, de volta à posse de bola, tem nos genes a pressa de fazer tudo muito limpa e eficientemente, confiante na mitologia de que 90 minutos é muito tempo. Afinal não é muito tempo, principalmente quando estamos ocupados a trocar a bola, quando confundimos fluxo com mudança. Mourinho conseguiu uma obra-prima. Não sei como, mas conseguiu. Ah, e com menos um jogador de campo durante mais de 60 minutos. 60 minutos é muito tempo? Depende de quem tem a bola nos pés."

1 comentário:

Miguel disse...

Este foi melhor que o teu...

Acontece!
Mas o teu está muito bom também...
Digamos que o teu é o Braga e este o Benfica... Ambos deste anos, claro!

;)