25 março 2010

Há poucos dias como o de hoje


Há poucos dias como o de hoje na vida de um médico. Ao contrário do que se pensa, que a vida hospitalar é um sobressalto constante e que todos os dias são diferentes e emocionantes, não é assim. Eles tendem a correr, de certo modo, monótonos. Talvez vos pareça estranho e talvez seja. Mas habituamo-nos. Uma pessoa habitua-se ao mais horrível que a vida nos traz. Os rostos e as doenças tendem a repetir-se, os tratamentos mecanizam-se, os cuidados sistematizam-se, os gemidos repetem-se, e a cura e a morte vão-se sucedendo dia após dia, ano após ano. Não quer isto dizer que nos tornemos insensíveis ou que as situações não nos toquem, nada disso. O que eu quero dizer é que, os procedimentos são mais ou menos lineares: fazem-se diagnósticos, seguem-se os tratamentos, é-se bem sucedido, ou não, com mais ou menos luta, com mais ou menos sofrimento pelo meio.
Mas hoje, do que falo é de outra coisa. Falo da essência da minha especialidade, a Medicina Interna, e que me desculpem as outras mas sabem que é verdade, a minha especialidade é, reconhecidamente, a "especialidade rainha" do diagnóstico. A única especialidade que é capaz de "virar o doente do avesso" para chegar a uma conclusão, ao primum movens de tudo aquilo. É disto que falo: do diagnóstico. É sempre fácil? Não, não só não é sempre fácil como, algumas vezes, raras, felizmente, não se chega lá, ao contrário do que os Houses da vida fazem pensar. É sempre rápido? Não. Há diagnósticos fáceis, mais ou menos imediatos, outros difíceis, outros raros, outros impossíveis por falta de meios ou de habilidade. Mas lá vamos chegando. O que é raro, é casos como este. Internamento nos primeiros dias do ano. Dois meses e tal de baterias infinitas de análises, de ecografias, de Tac's, de cintigrafias, de endoscopias, de biopsias de tudo o que era possível biopsar, de repetir tudo outra vez, de cirurgias exploradoras, de mais biopsias, de correrias para a anatomia patológica atrás dos resultados, de provas terapêuticas, de avanços, de recuos, de uma saturação imensa e de uma luta contra o tempo completamente desesperante.

Até hoje.

Hoje, quando cheguei à anatomia patológica (obrigada a todos, Sofia) nem queria acreditar. Estava ali, preto no branco, no fim de tudo, no ultimo procedimento efectuado . Tínhamos chegado lá. Voltei à enfermaria em passo apressado e com um sentimento indescritível de alivio. Fui ter com ele, dizer-lhe. É uma coisa chata, mas temos diagnóstico. Temos um alvo, temos um objectivo e temos armas. Ele olhou para mim, primeiro sério, depois iluminou-se-lhe o rosto magro e pálido, estampou um sorriso imenso nos lábios e disse parabéns!. Começamos os dois a rir. Rimos como se tivesse acabado. Como se estivéssemos felizes. E estávamos.

11 comentários:

san(T)os disse...

adorei o texto! realmente a vida real deve ser bem diferente dos "Houses". Essa série que apesar de tudo, me continua a fascinar...
Quem ambição e que prazer seria para mim ser médico +.+ e quem sabe um dia...

parabéns, gostei muito de ler!

Sofia Loureiro dos Santos disse...

Cristina
É uma enorme felicidade quando conseguimos chegar ao diagnóstico. E este nem sequer era linear, porque não é frequente.
Espero que tudo corra bem. Parabéns e boa sorte ao doente!

PS - A Anatomia Patológica é uma espécie de Medicina Interna.

António P. disse...

Então eu também digo : Parabéns.
Gostei do post, Cristina
Beijos

Cristina disse...

Santos

força, querer é poder!

Cristina disse...

Sofia

nem imaginas a felicidade que foi.até parecia que ja estava tratado!

a angustia de ver o doente a decair e a aperceber-se disso sem saber com o que se está a lidar....bem, tu sabes.

dalloway disse...

É refrescante chegar aqui e ler este texto que nos transporta para uma realidade com pinceladas de esperança, vontade, querer e persistência. Que corra tudo pelo melhor e que o vosso sorriso de hoje se prolongue por muuuito tempo.

Parabéns

Melancia disse...

adorei o post. de uma transparência... que fiquei com lágrimas nos olhos. assim sendo, não consigo imaginar o que de facto a cristina e o seu doente devem ter sentido. parabéns. aos dois.

papoila disse...

QUE BOOOM, Cristina! Parabéns.
Diz-se "quem procura...acha!", e foi o que aconteceu.
O melhor de tudo foi verificar que nunca desistiram de procurar.
Felicidades e muita saúde para TODOS.
xx

Gostei muito do post.

elle disse...

Parabéns Cristina. Parabéns por esta vitória.



(comovi-me)

Cristina disse...

dalloway

elle

papoila

melancia


eu também me emocionei. são momentos como este que nos fazem reconciliar um pouco com a profissão. que, acreditem, tem muitos momentos de extremo cansaço e saturação..


beijos

Estela disse...

Sou Enfermeira e trabalho diariamente com especialistas de Medicina Interna. E, sim, sao de longe a "especialidade rainha"!
Nao em termos de diagnostico, e obvio, mas reconheço muito bem sentimentos indescritiveis como o que tao bem e descrito neste texto!

E, ja agora: Parabens!