19 novembro 2009

Multiculturalismo capado


Em Darque, Viana do Castelo, foi a escola a ir ao encontro dessas menores, criando uma sala situada a escassa distância dos bairros onde vivem, espaço esse unicamente destinado a meninas ciganas há muito arredadas do ensino

E assim se mantém a discriminação étnica e sexual sob o manto das belas intenções.
Quando se pedia firmeza temos o colaboracionismo com situações intoleráveis e ilegais de impedir o acesso à escola por causa do sexo. Estas miúdas faltavam à escola antes? A escolaridade não é obrigatória? Como puderam não frequentar as aulas durante anos? Como pode o sistema que não cumpriu nem fez cumprir as suas leis de um Estado que até tem quotas para mulheres discriminá-las assim?
Eu sei, são ciganos. Mas acima de tudo são mulheres .
Talvez o que li num testamento dos anos cinquenta, em Portugal, ajude a explicar.
Alguém já hospitalizado, com uma esposa de 36 anos, decerto "desenganado", a um mês da morte, como era proprietário de diversos imóveis fez um testamento . Era curto, quase sem texto. Transcrevo a parte interessante:
Institui herdeira da quota disponível da sua herança sua dita esposa ficando nula esta disposição no caso de ela se casar novamente ou deixar de ser honesta.

Foi em Portugal, anos 50. Sessenta anos depois há portuguesas que continuam a ser gado com a colaboração do Estado

3 comentários:

Álex disse...

mas acham-se fantásticos por "irem ao encontro das menores"
é o que perguntas: mas afinal é obrigatório ou não? afinal temos cidadãos de primeira e de segunda? ou o que serve para uns não serve para outros? Mentes confusas é o que é
e nós temos que viver sob o governo desta gente...

Cristina disse...

Pendulo

não vejo esta atitude como discriminatoria e até acho que se não se fizesse continuariam a não frequentar a escola. assim, pelo menos, conseguem ensinar-lhes alguma coisa.


dou-te um exemplo do que se passava (não sei se aindA é assim porque a colega que fazia esta consulta já não esta lá) na consulta de obstetricia para toxicomanas e seropositivas.

as toxicómanas, independentemente de todas as filosofias possiveis sobre o assunto, não são capazes de esperar por uma consulta. ou seja, se estiverem lá mais de meia hora, "passam-se" e vão-se embora.

estão em causa não só a saúde delas, o que dou de barato, mas, mais que isso, uma criança que se receber tratamento adequado pode nascer seronegativa (e nasce na maioria das vezes).como é que a colega resolveu o problema? fazia as coisas de modo a que não esperassem mais de 5 a 10 minutos. nenhuma abandonou, dizia.

é uma injustiça brutal para com todos os outros doentes? é. no entanto, quando queremos chegar a um fim que consideramos muito importante, há que engolir alguns sapos.

no caso das ciganas, não o vejo como discriminação mas, provavelmente, como a única maneira de chegar ao tal fim. a escola é obrigatória mas ninguém consegue fazer aplicar a lei.

não me escandaliza.

dalloway disse...

A mim só não me escandaliza porque o exemplo que a Cristina deixou do testamento serve quase que de desculpa para reacções e comportamentos sociais que estando tão enraizados torna-os comuns e consequentemente desculpáveis.

Uma leitura transversal deste seu post daria muito pano para mangas (ou sobretudo!)