24 novembro 2009

e eu que pintei as madeixas de castanho-claro.


A imagem assalta-me a memória frequentemente em momentos como este, entre uma e outra coisa, em que não penso em nada em particular. Lembro-me daquele instante, como se estivesse num filme. Na rua, num dia igual a tantos outros, saía sozinha do supermercado e virei à direita no sentido da escadaria que comecei calmamente a subir. À minha frente seguia uma mulher de aspecto vulgar, uns quarente anos, talvez, nem bem nem mal vestida, cabelo meio grisalho, baixa e de passos apressados. Passou por mim imediatamente atrás de um menino de 5, 6 anos, não mais. O menino coxeava enquanto fazia um esgar de dor, o que o fazia atrasar-se e, consequentemente, interromper com frequência o passo apressado da mãe. À medida que se aproximava dele, a mulher fazia uma expressão de enfado, e, num gesto brusco, dava-lhe um empurrão que acompanhava com um "anda prá frente", seco e agressivo.

E o menino lá seguia, aos tropeções, com o ar conformado de quem não está habituado a melhor. Comecei a achar que a vida está realmente toda errada. Parecia-me estar outro lugar que não ali, num outro corpo que não o meu e as pessoas passavam como personagens num filme. Lembro-me, como agora, que só queria não sentir o que senti naquele momento.

Eu não queria sentir tanto.

5 comentários:

dalloway disse...

Caramba Cristina!

E eu que não sou de lágrima fácil...

Fado Alexandrino disse...

É uma tragédia.
Cada vez se vê mais os adultos frustados a desabafarem no elo mais fraco, as crianças.
Este acto de puxar arrastando os garotos é cada vez mais banal.
A sociedade moderna cria uma pressão sobre os casais e entre eles que a maioria não tem capacidade mental e moral para resolver.
Fico sempre muito triste quando vejo isto.

CPrice disse...

.. eu também não sou de lágrima fácil, mas sofro do mesmissimo mal .. sentir as dores alheias.

Labels: Belissimo Texto

Abraço *

papoila disse...

...E atenção é preciso ter cuidado se resolvermos defender o elo mais fraco!
Foi o que eu fiz quando vi mais ou menos a mesma cena.
Uma mãe arrastando e sacudindo o braço de um miúdo muito pequeno e com uma deficiência...intercedi:
A senhora desculpe mas não pode tratar assim a criança...não vê que ele não consegue andar???
Resposta:
Meta-se na sua vidinha!
E vira-se para o miúdo dá-lhe um estalo e diz: Toma lá e deixa-te de fazer de anormal"!!!

E lá foram.
O miúdo afinal não era deficiente estava a brincar....:)
E eu ...voltei à minha vidinha!!!
e ele ainda apanhou um estalo por minha culpa!
xx

Anónimo disse...

Tanta gente aos tropeções e tantos anormais lá por cima...