04 janeiro 2009

Até onde deve ir a solidariedade?

Do Sol:
O mesmo documento da Segurança Social chega a ser usado por vários imigrantes indocumentados nos hospitais. Fazem-no por medo, por estarem «sem papéis». As instituições pagam a conta, pois preferem fechar os olhos a deixar de cuidar desta população.

O Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental (Hospitais São Francisco Xavier, Egas Moniz e Santa Cruz) atendeu este ano no serviço de urgências 5.001 pessoas nestas condições.

Hospital Curry Cabral, em Lisboa, tem casos destes, que representam «despesas de bastantes milhares de euros que o hospital tem e que não têm nenhuma contrapartida em termos de receitas para essa despesa», como disse à Lusa o presidente do Conselho de Administração.

No Amadora Sintra, a situação é sobejamente conhecida. A "bronca" geralmente rebenta quando uma mulher se apresenta a parir pela 3ª ou 4ª vez no mesmo ano, ou quando um utente descobre, quando apresenta o cartão de utente, que já lhe foi passada uma certidão de óbito....

São pessoas que estando ilegais, usam este "esquema" por "medo de serem identificadas". Se por um lado existe uma classe trabalhadora ultra explorada com salários miseráveis (não podem protestar) a quem o Estado deveria proteger facilitando a legalização com todos os direitos e deveres de qualquer trabalhador, outros há que, pelo contrário, não trabalham, chegam a Portugal sem qualquer garantia de alojamento ou de contrato de trabalho, sobrevivem como podem na clandestinidade, e outros ainda, em situação mais precária, chamados pelos familiares por se encontrarem doentes e existirem recursos terapêuticos nos países de origem. Não têm qualquer direito, a não ser a aposta na solidariedade dos serviços de saúde (e sociais) portugueses ou o recurso ao esquema do "cartão do amigo". Estas situações são de extrema gravidade e englobam dramas humanos inimagináveis. Por exemplo, como diz a Prof. Maria do Céu Machado ao Sol, havia raparigas grávidas que chegavam ao Hospital Amadora-Sintra «com o feto morto por hipertensão gravíssima devido a uma gravidez não vigiada».

A pergunta é envenenada porque confronta dramas humanos com problemas e carências efectivas do nosso país e a assistência médica a pessoas que não têm qualquer direito a ela a não ser pela via humanitária. Lembro apesar de tudo que, como se diz na notícia, um internamento no serviço de nefrologia(um exemplo) poderá custar entre 1.500 e 1.800 euros por dia ou que, por exemplo, o tratamento da SIDA custa muitos milhares. E que o nosso serviço social não tem dinheiro para financiar lares a idosos que descontaram e trabalharam para o estado dezenas de anos..

Não dou a minha opinião de propósito, porque será sempre enviesada pela profissão e porque o que gostava de saber era, se é que isso é possível, como a sociedade pode resolver o problema. Porque é um problema. Grande. De contornos ainda mal definidos, mas complexo e grave.

8 comentários:

MariaTuché disse...

Amiga nem de propósito este assunto que abordas, ainda outro dia "discuti" acerca de algumas injustiças que vejo mas sei em consciência que muitas situações são quase impossiveis de contornar.
Em 1º lugar gostava de referir que sei que muitos de nós se queixam do nosso serviço nacional de saúde, eu própria já o fiz inconscientemente, mas devemos dar graças pois na super potência "AMÉRICA" a malta bem pode morrer se não tiver um seguro de saúde dos bons e caro, mas lixa-me ver pessoas a fazer cirurgias plásticas(conheci uma senhora que fez "sortuda" e que nem trabalha, ou seja, não faz descontos para a SS) em clinicas privadas através de uns benditos cheques que são dados através de consultas em hospitais públicos,a senhora fez uma abdominoplastia mas sem nenhum problema grave de saúde, e eu estou 2 anos à espera de uma consulta para oftalmologia, faço descontos para a segurança social desde 1990 e que até nem tem sido pouco...
Já para não falar de casos clinicos graves que conheço, mas lá está, é complicado, e como bem dizes é um probelma GRANDE.

Um beijo querida e BOM ANO :)

Fado Alexandrino disse...

É de bom senso não se falar muito sobre aquilo de que se conhece pouco.
É o meu caso neste caso.
Há no entanto duas considerações que adianto.
A primeira é que não se consegue compreender como é que estrangeiros sem qualquer projecto de trabalho, sem rendimentos e sem quaisquer qualificações, conseguem entrar no país com vistos de turistas e depois desaparecem sem deixar rastro.
Isto é inadmissível, e sem falar em pessoas com cadastro que fazem este mesmo percurso.
Temos invisuais a vigiar as fronteiras?

A segunda é que o SNS gratuito (ou quase) não pode continuar.
As taxas moderadoras têm que sofrer um agravamento brutal de acordo com os rendimentos declarados em IRS.
Quem muito ganha tem que pagar um bom bocado mais.
Não é aceitável que eu possa ir a uma consulta e pagar de taxa moderadora um euro e picos.
Não posso ter os mesmos descontos em remédios que reformados com 300 euros por mês.

Dirão que mesmo assim não há justiça porque o IRS de muito é mentirosos.
Isso é outro problema e tem que ser também resolvido.
É para isso que existe o Estado, para todos fiscalizar protegendo uns dos outros.

Ka disse...

Pois...o tema é difícil!
a forma de resolução do problema é bem mais complexa do que decidir por tratar ou não estas pessoas.
Acho que passará antes pela fiscalização da imigração pois todos aos anos vamos deixando entrar cada vez mais gente, num país que tem uma segurança social que já não suporta os cuisados médicos da sa própria população pela foma errada como é gerida em alguns casos...isto já para não falar dos exemplos que a Maria Tuch´acabou de dar e que também conheço :S

Um assunto demasiado complexo para ser opinado num simples comentário.

beijos e um excelente ano Cristina!

sem-se-ver disse...

(não li o post, desc, mas estou com pressa)

só para retribuir os votos de um bom ano, cristma. tudo de bom.

Cristina disse...

Maria

tens toda a razão. Embora as plasticas tenham as suas indicações e obviamente que quem beneficia delas aumenta a sua auto-estima e tudo o mais, é vergonhoso o que se passa nomeadamente com a oftalmologia. é mais ou menos generalizado e é quase imoral uma vez que afecta um orgão tão fundamental como a visão. penso que o governo ainda não se dedicou como devia a este tipo de cirurgias. as oncologicas são importantes, mas estas, quanto a mim vêm logo a seguir.

um beijo

Cristina disse...

Fado

tem que ser resolvido, é certo, mas com alguma justiça. por exemplo: porque é que eu que desconto todos os meses uma brutalidade de dinheiro, e é mesmo uma brutalidade!, para o IRS, se precisar de um tratamento tenho que pagar muito mais que os outros? ou seja, vou pagá-lo duas vezes?? porquê, fiz mal a alguém? sou penalizada por trabalhar? não te esqueças que como eu referi ha uns posts atrás, 40% das minhas horas extraordinarias vão para o Estado...e depois quando preciso ainda levo outra paulada? também não acho justo....

o que eu achava justo era que NINGUEM pudesse fugir aos impostos, isso sim é que era justiça e ja haveria dinheiro para gastar na saude à vontade.

Cristina disse...

Ka

é, muito dificil de resolver mesmo.

um beijinho e bom ano.

LopesCa disse...

Uma situação complexa :S