13 novembro 2008

falar de amor, é preciso.

Pedro Dória, aborda no seu blog a pesada derrota sofrida pela comunidade gay na América ao mesmo tempo que elegia o primeiro presidente negro e que se traduziu na vitória da Proposição 8 na Califórnia, ou seja, significando que a constituição do Estado será emendada para um artigo no qual o casamento civil é caracterizado como a ‘união entre um homem e uma mulher’. A união civil, mantem-se.
(retirada dos comentários, a lista de direitos que casais heterossexuais possuem nos EUA e que os homossexuais deixarão de ter na Califórnia: www.nolo.com/.../)
Lendo a excelente dissertação do Pedro sobre a "simples" importância da palavra casamento, cujo significado vai muito além da "básica" união civil, cheguei ao Diário de Bordo e ao incrível desabafo do jornalista (julgo que é jornalista))

Keith Olbermann, da MSNBC.
Vale a pena ouvi-lo, mas o Pablo Villaça deu-se ao trabalho de traduzir. Aqui fica, para pensar, com as minhas desculpas pela extensão do post. A causa merece.

“Alguns esclarecimentos, como prefácio: não é uma questão de gritaria ou política ou mesmo sobre a Proposta 8. Eu não tenho nenhum interesse pessoal envolvido, não sou gay e tive que me esforçar para me lembrar de um membro de minha imensa família que é homossexual. (...) E, apesar disso, essa votação para mim é horrível. Horrível. (…) Porque esta é uma questão que gira em torno do coração humano – e se isto soa cafona, que seja.
Se você votou a favor da Proposta 8 ou apóia aqueles que votaram ou o sentimento que eles expressaram, tenho algumas perguntas a fazer, porque, honestamente, não entendo. Por que isso importa para você? O que tem a ver com você? Numa época de volubilidade e de relações que duram apenas uma noite, estas pessoas queriam a mesma oportunidade de estabilidade e felicidade que é uma opção sua. Elas não querem tirar a sua oportunidade. Não querem tirar nada de você. Elas querem o que você quer: uma chance de serem um pouco menos sozinhas neste mundo.
Só que agora você está dizendo para elas: “Não!”. “Vocês não podem viver isto desta forma. Talvez possam ter algo similar – se se comportarem. Se não causarem muitos problemas.” Você se dispõe até mesmo a dar a elas os mesmos direitos legais – mesmo que, ao mesmo tempo, esteja tirando delas o direito legal que já tinham (o do casamento civil). Um mundo em volta deste conceito, ainda ancorado no amor e no matrimonio, e você está dizendo para elas: “Não, vocês não podem se casar!”. E se alguém aprovasse uma Lei dizendo que você não pode se casar?
Eu continuo a ouvir a expressão “redefinindo o casamento”. Se este país não tivesse redefinido o casamento, negros não poderiam se casar com brancos. Dezasseis Estados tinham leis que proibiam o casamento inter-racial em 1967. 1967! Os pais do novo Presidente dos Estados Unidos não poderiam ter se casado em quase um terço dos Estados do país que seu filho viria a governar. Ainda pior: se este país não houvesse “redefinido” o casamento, alguns negros não poderiam ter se casado com outros negros. (...) Casamentos não eram legalmente reconhecidos se os noivos fossem escravos. Como escravos eram uma propriedade, não podiam ser marido e mulher ou mãe e filho. Seus votos matrimoniais eram diferenciados: nada de “Até que a morte os separe”, mas sim “Até que a morte ou a distância os separe”.
O casamento entre negros não era legalmente reconhecido assim como os casamentos entre gays (...) hoje não são legalmente reconhecidos.
E incontáveis são, em nossa História, os homens e mulheres forçados pela sociedade a se casarem com alguém do sexo oposto em matrimónios armados ou de conveniência ou de puro desconhecimento; séculos de homens e mulheres que viveram suas vidas envergonhados e infelizes e que, através da mentira para os outros ou para si mesmos, arruinaram inúmeras outras vidas de esposas, maridos e filhos – apenas porque nós dissemos que um homem não pode se casar com outro homem ou que uma mulher não pode se casar com outra mulher. A santidade do matrimónio.
Quantos casamentos como estes aconteceram e como eles podem aumentar a “santidade” do matrimónio em vez de torná-lo insignificante?
E em que isso interessa a você? Ninguém está te pedindo para abraçar a expressão de amor destas pessoas. Mas será que você, como ser humano, não teria que abraçar aquele amor? O mundo já é hostil demais. Ele se coloca contra o amor, contra a esperança e contra aquelas poucas e preciosas emoções que nos fazem seguir adiante. Seu casamento só tem 50% de chance de durar, não importando como você se sente ou o tanto que você batalhará por ele. E, ainda assim, aqui estão estas pessoas tomadas pela alegria diante da possibilidade destes 50%. (...) Com tanto ódio no mundo, com tantas disputas sem sentido e pessoas atiradas umas contra as outras por motivos banais, isto é o que sua religião te manda fazer? Com sua experiência de vida neste mundo cheio de tristeza, isto é o que sua consciência te manda fazer? Com seu conhecimento de que a vida, com vigor interminável, parece desequilibrar o campo de batalha em que todos vivemos em prol da infelicidade e do ódio... é isto que seu coração te manda fazer?
Você quer santificar o casamento? Quer honrar seu Deus e o Amor universal que você acredita que Ele representa? Então dissemine a felicidade – este minúsculo e simbólico grão de felicidade. Divida-o com todos que o buscam. Cite qualquer frase dita por seu líder religioso ou por seu evangelho de escolha que te comande a ficar contra isso. E então me diga como você pode aceitar esta frase e também outra que diz apenas: “Trate os outros como gostaria de ser tratado”.
O seu país – e talvez seu Criador – pede que você assuma uma posição neste momento. Um pedido para que se posicione não numa questão política, religiosa ou mesmo de hetero ou homossexualidade, mas sim numa questão de Amor. (...) Você não tem que ajudar ou aplaudir ou lutar por ela. Apenas não a destrua. Não a apague. Porque mesmo que, num primeiro momento, isto pareça interessar apenas a duas pessoas que você não conhece, não entende e talvez não queira nem conhecer, é, na realidade, uma demonstração de seu amor por seus semelhantes. Porque este é o único mundo que temos. E as demais pessoas também contam."

Não deixem de ler, ainda, o comentário lúcido e algo emocionado do Pedro. Porque, como ele diz, paciência é fácil quando se é homem, branco e heterossexual

9 comentários:

Brancaleone, o excessivamente sincero disse...

Minha opinião sobre homossexualismo é tida e havida como radical e absolutamente preconceituosa. Vai daí que se eu emití-la aqui, serei apedrejado, torturado e queimado na fogueira da hipocrisia que campeia no mundo mas como sou teimoso e arrogante lá vai:

Sou contra e pronto. Casamento pressupõe união entre DOIS SEXOS distintos - Homem e mulher e pronto. O resto é acordo, contrato, acerto, situação ou seja lá o que for. Podem usar a semântica para burlar a natureza mas no fim e ao cabo eu considero o homossexualismo de duas maneiras:
Uma questão glandular onde faltou ou sobrou alguma substância ou
Uma questão mental.
Usa-se muito a expressão "opção sexual" para de certa maneira retirar o aspecto patológico da questão homossexual mas opta-se por muita coisa errada também.
É minha opinião.
Pago um preço por ela, mas é minha opinião.

Fado Alexandrino disse...

Não se preocupe.
Não está sózinho, não está mesmo nada sózinho.

Cristina disse...

brancaleone

não paga preço nenhum nem vai ser apedrejado! :))) a sua opinião é sua e ainda bem que tem alguma. só uma coisa lhe cobram eles, os homossexuais: que os deixe unir-se com a mesma liberdade com que você o pôde fazer. sem serem apedrejados nem queimados na fogueira.

não é pedir muito é? no fundo, nada que interfira com o nosso café com leite como diria Millor Fernandes.

é porque são duas,e só duas, as razões para este pedido:

-educação (que inclui respeito)
-reciprocidade.

um beijo grande

Cristina disse...

fado

penso que a resposta ao Branca chega.

no fundo, a vida dos outros só é condenável quando interfere negativamente (e activamente) com a nossa....

Anónimo disse...

Pá, que se casem, se amem e que tenham lá os direitos em dia. Pode ser que certas figuras de estilo carnavalesco, ali da associação dos picóla deixem de ser notícia.

Agora, que essa malta possa adoptar crianças faz-me confusão! Não sei, não sou psi mas duas figuras do mesmo sexo como pais!? Amigos?

Bom, mas a reprodução da espécie vai continuar a ser sexuada e com produção de gâmetas feminino e masculino ou é só fazer download …:-)

Tino.

dalloway disse...

Li com entusiasmo o fantástico e emocionado texto de Pedro Doria.
A certa altura tropeço em "...o casamento quer dizer um vinculo de amor e dedicação" e de repente sinto a minha cabeça reafirmar o quanto caricata, desonesta e desrespeitosa é esta constante negação em aceitar o outro porque vai contra todos os valores ditos morais... e coisas que tais. O facilitismo com que se julga e se anula os afectos e sentimentos dos outros é espantoso e assustador.
Pedro Doria explicou de forma directa e transversal. O desabafo do jornalista é pertinente e audaz.

Por isto e por mais que isto a Cristina não pode nem deve desculpar-se pela extensão do post porque é sempre muito bom quando nos incitam a pensar e repensar atitudes, afectos e aprender com o pensamento e sentir do outro. A cabeça agradece e o coração fica mais rico.

Gostava que a aNa viesse até aqui e que a Duca dissesse de si.

Depois de ler o texto de Pedro Doria e pelo titulo do seu post lembrei-me da música (1954) "Wild is the wind" e quero deixar o link e algo me diz que devo optar pela versão de David Bowie (e deixar as versões de Nina Simone ou Cat Power para outra altura)

http://www.youtube.com/watch?v=90u1IV4dw80

Obrigada Cristina.

loirices disse...

gostei muito de ouvir este comovente testemunho.
Obrigada por o publicar.

aNa disse...

Cristina,
mais uma vez obrigada por estares sempre atenta e por seres quem és.
eu não sei que dizer sobre o assunto. li o teu post, li o do Pedro e está lá tudo e para mim é tudo lógico - como são lógicas todas as coisas que digam respeito à felicidade, ao bem estar de todas as pessoas.
não consigo perceber em que é que, o facto de existirem homossexuais e deles eventualmente quererem casar, isso afecta os outros que não são. é uma coisa que me transcende. mas devo ser eu que tenho aqui alguma falha...
há uma coisa, no entanto, que não deixa de existir, por muito que haja quem se oponha, quem não entenda, quem queira apagar, etc, etc - é o AMOR que eu sinto pela minha companheira; é a felicidade que eu sinto; o conforto que tenho. e mais, com o apoio de amigos e família, que é para compôr mesmo bem o ramalhete! é que se esperam aqui uma desgraçadinha, vítima da discriminação, estão bem enganados, todos esses tão preocupados em mexer com a vida dos outros, para a complicar.
é que felizmente ainda há muito quem não seja mesquinho a esse ponto, e ainda que não entendendo inicialmente, acaba por perceber que não se deve mexer com a vida e a felicidade dos outros, e hão-de ser cada vez mais.
as boas causas multiplicam-se, acredito!
beijo.

dalloway, beijinho e obrigada pela lembrança.

dalloway disse...

aNa, eu é que agradeço porque é sempre um prazer ouvi-la. Beijinho