22 novembro 2008

a vida distribui não aleatoriamente os seus amargos troféus da culpa.


Excerto de um artigo do Expresso da autoria de ROSA PEDROSO LIMA sobre maus tratos por parte dos filhos exercidos sobre pais e avós.

«Todas as crianças que se tornaram ditadoras passaram por um processo de desenvolvimento educativo e emocional onde não foram responsabilizadas», diz Manuel Coutinho, do Instituto de Apoio à Criança (IAC). . Nesse sentido, as falhas educacionais - neste caso, o excesso de mimos, de atenções e de objectos com que a criança foi rodeada - são quase tão graves como outras negligências. «Antes de serem agressoras, foram agredidas», acrescenta Manuel Coutinho, que não tem dúvidas que «dar tudo, oferecer tudo o que se tem e o que se não tem é maltratar».
O problema torna-se indisfarçável quando ganha anos, peso e altura. Uma birra de uma criança de 3 anos tem efeitos colaterais reduzidos. Mas quando se dá uma década e vários quilos depois, o embate tem os pais como alvo ou, mais preocupante, como possíveis vítimas. «Os problemas surgem na adolescência. Mas não são dessa idade. São problemas de infância, não resolvidos a tempo», prossegue Manuel Coutinho.
«Quase sempre, quando surge um pequeno ditador, foi porque o pai ou a mãe baixaram a guarda do seu papel parental», acrescenta o presidente do IAC. Algures, bastante cedo na infância. Muitos porque fizeram «um sobreinvestimento nos filhos» e se entregaram totalmente a eles, achando que estar atento é dar tudo, ceder a tudo, estar disponível sempre.
Não será assim. Uma criança que tudo tem não é necessariamente feliz. Pode mesmo crescer com défices comportamentais, dificuldades de relacionamento, de integração. Ninguém é feliz sozinho, repetem os psicólogos. Os pais que mais o quiseram ser, os que adiaram o nascimento dos filhos - normalmente só um, para que a atenção não se dispersasse - para lhes darem todas as facilidades possíveis, os que travaram as suas carreiras e vidas a partir da hora do parto são os mais vulneráveis a gerarem «pequenos ditadores».
«Muitos sofrem de solicitude primária excessiva», um jargão que serve para dizer que, «mesmo antes de a criança sentir a necessidade, já a mãe ou o pai a está a satisfazer». Seja ela um brinquedo, um alimento, um passatempo. Mas crescer é aprender a resistir, a superar obstáculos e contrariedades. E falhar esta parte do percurso é tirar aos filhos uma fatia essencial da sua infância. E logo a fatia decisiva.

4 comentários:

Nilson Barcelli disse...

Por vezes os pais criam verdadeiros monstros e depois sofrem as consequências.
O texto é muito bom, obrigado pela partilha.
Cara amiga, bom fim de semana.
Beijinhos.

Anónimo disse...

Sou pai, avô e fui professor num instituto militar. Já tinha uma ideia muito parecida, embora muito menos trabalhada. A disciplina é essencial desde tenra idade e as coisas obtidas com algum esforço próprio têm outro sabor.
Obrigado, gostei.

e-ko disse...

pois, pois, crescer é também aprender a lidar com as frustrações...

Anónimo disse...

Erro confundir mimos com amor..

abraço

intruso