26 outubro 2008

lado a lado com o Alzheimer

Olá, o meu nome é Lisa

(...)
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

Otto Lara Resende
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Post inspirado no Pedro Doria

3 comentários:

dalloway disse...

Caramba Cristina!!!!

Eis mais um daqueles posts em que me apetece dizer-lhe: 'bora lá juntar as cadeiras, preparar um chá (ou vinho) e conversar sobre a diversidade de coisas que estão aqui implícitas e explicitas.

Caramba Cristina!!!

Cristina disse...

é dalloway

ninguém deu muito por este post, mas eu amei deixá-lo aí.
é tocante, muito tocante e sabia que almas-dalloways, ainda há algumas :)


quanto mais não sejam há uma a quem nunca escaparia. :))

Cristina disse...

é dalloway

ninguém deu muito por este post, mas eu amei deixá-lo aí.
é tocante, muito tocante e sabia que almas-dalloways, ainda há algumas :)


e se mais não houver, há pelo menos uma a quem nunca escaparia. :))