21 agosto 2008

certos fantasmas, chegam a causar perturbação até nos corações selvagens.



A propósito de um dos meus filmes preferido, As Pontes de Madison County, no Murcon, Júlio Machado Vaz coloca o dedo numa ferida que em alguma altura da vida todos temos aberta. Uns dão por ela outros não. Uns conseguem fazê-la cicatrizar, outros nem tanto.

O fulcro da questão é o habitual... - deixar ou não um amor tranquilo por uma paixão avassaladora. Em trinta anos de profissão ouvi descrever as duas decisões e os trajectos subsequentes. Há quem fique por cobardia, pelos outros, por considerar que a paixão não resistirá ao quotidiano e um dia se assemelhará ao afecto deixado para trás. Há quem descubra não estar talhado(a) para a vida de casal, embora tenha pressionado o outro para o (a) seguir. Muitos dos julgamentos de valor a que assistimos partem do pressuposto que viver a paixão à custa de tudo o resto é quase uma "obrigação ética". Não concordo e a História também não. Acho perfeitamente legítimo resistir às consequências práticas de uma paixão e aos 58 já percebi que somos muito injustos para o amor tranquilo, chegamos a confundi-lo com monotonia e desistência! No caso do filme, gostaria apenas de acrescentar algo - compreendo o artifício narrativo de deixar o caso "em testamento" aos filhos. Na vida real parece-me um erro. Se tivesse escolhido ficar no quadro familiar, preservá-lo-ia post mortem, não vejo a vantagem de comprometer a fantasia harmónica da ninhada. Pelo contrário, teria muito medo que sentissem a revelação como a prova de que, admitindo-o ou não, eu teria sido infeliz durante anos, desistindo da "verdadeira felicidade por causa deles". Não, teria sido uma decisão minha, ponto final. E seria felicidade? Não serão as Pontes mais um exemplo da tradição ocidental de considerar perfeitos apenas os amores interrompidos por morte ou distância?

17 comentários:

Anónimo disse...

Tou agradavelmente surpreendido pela referencia ao Prof.J.M.V.

Qualquer que seja a opção há um preço a "pagar"...

Tino.

Maria disse...

O filme tb é um dos meus favoritos. Quanto a este ponto: “deixar o caso "em testamento" aos filhos. Na vida real parece-me um erro.”
No filme foi a tábua de salvação para os filhos envolvidos em tempestades matrimoniais: Na vida real … dava horas de discussão, o certo/errado deste detalhe

Bartolomeu disse...

É bem provável que a interrogação final, seja a resposta a si mesma, contudo a reflexão anterior não dá lugar a uma característica que define os humanos naquilo que de mais íntimo possuem... a consciência.
Um outro filme tambem muito interessante é aquele com o Robert Red Ford "Domador de Cavalos". Disfarçado de pacífico, invade recantos do inconsciente que colocam o espectador perante um espelho que produz efeitos especiais.
;)

Lola disse...

Cristina mais linda,

Primeiro teria de definir " amor tranquilo".

Será Amor?
Ou outro sentimento que implica conforto, segurança, dar-se bem?

A paixão também pode não ser a melhor opção.......

Mas arriscar exige coragem.

Nunca teremos certezas.

Optar pelo que já conhecemos pode ser sensato, mas deixa sempre um fio de sonho para o que poderia ter sido.

No filme a mensagem póstuma vem lembrar a amargura da que não teve coragem de dar outro passo.

É muito complexo.

O Amor não deve nunca ser tranquilo.

Mesmo que dure décadas.

O Amor é sempre inquietação.


Beijos enormes

Cristina disse...

Tipo

surpreendido??

é dos poucos blogs que em tempos segui com alguma atenção, quando havia discussão a sério. agora ja não...
há por aqui até, quem tenha vindo de lá :)

Cristina disse...

Tipo

surpreendido??

é dos poucos blogs que em tempos segui com alguma atenção, quando havia discussão a sério. agora ja não...
há por aqui até, quem tenha vindo de lá :)

Cristina disse...

maria

dava sim, quanto a mim não é linear. como bem diz o JMV, poderia dar a sensação desconfortavel aos filhos de que não se foi feliz por eles. é um peso demasiado grande, eu acho. embora possa ser verdade mas, se foi essa a nossa opção, ha que aguentá-la.

talvez também dependa do modo como se colocam as coisas, sei lá...o tema é muito interessante e dava uma excelente discussão :)

beijos

Cristina disse...

bartolomeu

a interrugação final é interessantissima, porque, afinal, consideramos o amor sempre inquietante, como diz a Lola. Não ha outras formas de amor? qual deles é mais importante só depende de como cada um de nos quer viver a vida, de forma tranquila ou em sobressalto. ou alternando entre uma e outra. não há um amor ideal, eu acho.

Cristina disse...

Lolita bonita

eu não tenho duvidas que existem formas de amor tranquilo. também não tenho duvidas que todos devemos viver essa inquietação em alguma vez na vida e que arriscar é importante na busca da felicidade, mas, como disse acima, tem tudo a ver com a personalidade de cada um e com o tempo. se em determinadas alturas nos sentimos dispostos a virar o mundo, noutras sentimo-nos bem mais felizes a beber juntos um chá ao serão debaixo da mantinha.....sem inquietações ;)

beijinhos

Anónimo disse...

O "Murcon", tem experiencia e conhecimento nestes assuntos de amores... se, por vezes, tem um sentido de humor mais pro arcaico, é lá com ele! Eu divirto-me...

Sobre os amores, cada um toma a decisão que entende. Contudo, podem existir factores diversos que condicionem o Individuo a optar pelo contrário à sua vontade. Por exemplo a condição social e cultural para já não falar na religiosa.

Eu, se assim se pode dizer, fui de cá para lá. Terá sido curiosidade, infidelidade?! Paixão avassaladora é que não foi!...
Blogs há muitos mas o meu é especial! gosto do "aconchego" da mailinda (é atrevimento? então pesso desculpa). além dos temas, das fotos (gostei imenso das da feira medieval), há uma coisa que eu acho lindo. Os nomes! Ainda para mais nesta altura..."Pezinhos n`areia" é do melhor que já vi:))

Tino.

dalloway disse...

Eu simplesmente ADORO este filme.
Daria uma fantástica discussão acompanhada de um bom vinho..um bom vinho...- mas sem cigarro porque continuo sem fumar -...com um bom vinho....ah, já tinha dito!

Fado Alexandrino disse...

Tardiamente apenas para dizer que é um dos grandes filmes do cinema.
Meryl cujo opus está aqui e Clint que é bom como um vintage se eu mandasse, mandavam tudo à fava.

Assim só me resta pedir a Deus que me envie um Pêra-Manca 1991 e ao bebê-lo brindar à Dalloway

e-ko disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
e-ko disse...

como já não passo há vários dias e que leio tudo, mesmo com alguns dias de atraso deixo também um comentário:

viver não é fácil e ainda mais difícil viver com os outros, mesmo que seja a priori com a grande paixão e depois fazer coincidir essa paixão avassaladora dos primeiros tempos com o amor/amizade/respeito da continuidade - é aqui que esbarra o princípio de realidade - ainda mais difícil... daí que as mais belas histórias de amor são as contrariadas por terceiros, pela falta de coragem em assumi-las ou pela morte (Tristão e Isolda ou Romeu e Julieta)

por experiência sei que acabo por ceder aos sentimentos mais fortes, mas não sem me interrogar sobre as consequências, esteja só ou não, e por experiência, também aprendi que enquanto dura vida doçura, em acabando... e devo dizer que tenho cada vez menos paciência!

mas no caso preciso que abrda o JMV, não teria legado a minha frustração aos meus descendentes... isso do film só foi para criar mais um efeito ,uma linha de fuga, uma prespectiva - sempre ajuda a vender - quando a história, à parte a intrepretação dos dois actores, não tem grande consistência... um belo filme, só!

beijinhos, piquena. bom fim de semana.

Cristina disse...

dalloway

fado

olha que dois....estou aqui a imaginar a coisa. havia de ser lindo, la isso não tenho duvidas :))

Cristina disse...

e-ko

é mais ou menos como os mitos, têm de morrer cedo, ou não seriam mitos. :)

quanto ao filme, é um dos "meus filmes" sem duvida alguma. é o tipo de filme que me enche: o que lida com sentimentos, decisões dramaticas, com as duvidas, com as contradições de sentimentos, com tudo o que constitui a vida tratado de forma simples. tão simples e tão intenso como aquela mão crispada no fecho da porta do carro numa cabeça a 1000...é o espelho perfeito do que nos vai na alma, muitas vezes.

por outro lado, não tenho paciencia para filmes em que é preciso andar às voltas para se perceber o que querem dizer, aquelas intelectualices muito elaboradas.... a vida é assim: dificil, mas simples.
;)

beijos

e-ko disse...

Por vezes é ainda mais complicada e mais cheia de enredos do que a dos filmes mais intelectualoides... há de tudo para todas as bolsas! e nem sempre as complicações dos enredos se apresentam directamente proporcionais ao recheio da dita bolsa!