07 agosto 2008

Eu sabia que eu era boa, mas não sabia que seria aquela a fazer algo que nunca havia sido feito antes.
[Nadia Comaneci]


A horas do início dos Jogos Olímpicos, tento chegar às recordações mais distantes, aos primeiros jogos que segui com a atenção própria do deslumbramento de adolescente, aos primeiros ídolos.
E, o primeiro nome que me vem à memória é Nadia Comaneci, a fascinante ginasta que arrebatou o mundo em 1976.
Eu tinha 13 anos, ela 14, nada em comum a não ser a juventude. Eu com uma vivência semelhante à de milhões de adolescentes, ela, com toda a certeza, privada dessa mesma vivência em nome da glória. Porque, convenhamos, ninguém consegue protagonizar o momento definitivo da história da ginástica olímpica aos 14 anos, sem ser privado de boa parte da infância.... Nadia tinha seis anos quando despertou a atenção do casal de treinadores Marta e Bela Karoly, passando, a partir dessa altura, a ser submetida a cinco horas de treino por dia.
Foi apresentada ao mundo nos Europeus anteriores, com excelentes resultados, mas, na verdade, o que ficou para a história é que nada voltou a ser igual depois da apresentação de Nadia, 1,45m e 35 quilos, nas provas de ginástica dos Jogos Olímpicos de Montreal: Árbitros embasbacados e uma série de notas 10 (7) como jamais se tinha visto, traduz a perfeição dos movimentos da ginasta que se tornou o símbolo daquela Olimpíada e se tornou uma lenda ao conseguir, no dia 18 de Julho, pela primeira vez na história, a primeira nota 10 (desempenho perfeito) nas paralelas assimétricas.
Sobre esse momento, conta: "Não foi uma apresentação perfeita, embora pareça muito boa pela televisão. Os juízes tinham dado 9,90 à melhor ginasta e sentiram que aquela era melhor. Não havia escolha a não ser dar 10,00", afirmou Comaneci em entrevista à BBC.
"Eu não costumava observar o placard. Costumava dar uma nota a mim mesma, e achei que um 9,90 era bom o suficiente, mas, virei-me e vi 1,00 no placard. Olhei para os meus colegas de equipe em volta e então percebi que o placard não poderia marcar o 10,00 porque eles não tinham espaço suficiente", recorda a romena.
No total, foram três medalhas de ouro, uma de prata e outra de bronze. O que ninguém sabia é que Nádia chegou a Montreal torturada por uma terrível dor no nervo ciático e sem esperança de conquistar sequer uma medalha de ouro. Depois, foi o que se viu. A vontade, a disciplina de ferro e a obrigação de ser a melhor fizeram tudo.
Ainda uma criança, Nadia não sabia o que fazer diante de tantas câmaras e flashes. Quando questionada sobre a sua maior vontade após o triunfo olímpico, Nadia respondeu timidamente: "Voltar para casa". Quando retornou ao seu país, o governo romeno deu-lhe a medalha de Heroína Socialista do Trabalho.
Em 1989, Nadia Comaneci decidiu fugir atravessando a pé a fronteira entre Hungria e Roménia. De lá, foi para Viena e pediu asilo político nos Estados Unidos. «Eu tinha que fazer alguma coisa para ter uma vida livre. Foi apenas uma decisão de momento, não pensei muito sobre aquilo. Não tinha idéia de como seria do outro lado".
Aos 46 anos, é mãe e casada com o medalhista de ouro norte-americano da ginástica, Bart Conner.
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Hoje, as atletas têm que ter pelo menos 16 anos para competir nas Olimpíadas.

12 comentários:

Animal disse...

o meu desporto mais radical é teclar para o blogue. e mesmo assim arrisco imenso uma tendinite...

o Churchill é que a sabia toda: "No Sports!"

anrafel disse...

A infância dela foi pro saco, mesmo. Não foi à toa que teria declarado que, para sua filha, desejaria tudo, menos ser ginasta.

Fado Alexandrino disse...

Post perfeito.
Resta acrescentar que segundo me parece o público vaiou quando viu o 1,0.
Não tinham percebido e vá lá saber-se porquê julgaram que a nota era aquela.

António P. disse...

Boa noite Cristina ,
Eu, em 1976, já tinha 23 anos.
E sempre preferi a Ludmilla Tourischeva às Nadia e Korbut quais meninas prodigio amestradas e preferidas pelos juris.
Mas gostos não se discutem.
Cumprimentos

Cristina disse...

animal

no sports,tabaco e alccol, o segredo do sucesso e da longevidade :)

Cristina disse...

anrafel

isso foi, de certeza :)

beijos

Cristina disse...

fado

realmente é caso para ficar um bocado desorientado ao ver ali um 1...

bom, resta dizer, tambem, que ela diz numa entrevista que o que é hoje deve a esse tempo e que na altura não lhe ocorria reclamar porque via a coisa como estando a esforçar-se para ser campeã. enfim...o problema é que estas miuda eram fisiologicamente prejudicadas, não tinha um crescimento completamente normal. por exemplo, a maior parte eram amenorreicas, como as anoreticas.

Cristina disse...

boa noite António, bem vindo!

também me lembro bem da Ludmilla Tourischeva, mas esta era um assombro, independentemente de tudo o resto. ainda agora ao ver o video, principalmente o segundo exercicio, até fiquei arrepiada...


beijinhos

Catarina Campos disse...

Opá! Até tou comovida, alguém que também era fã dela. Acreditas que tenho os recortes todos dos jornais da época? Era uma fedelha de 12 anos, eu. Foi a minha inspiração, aquela miúda que voava.

Isabel-F. disse...

lembro-me bem dessa menian , da Nadia ....

quase me parece que foi ontem ...


adorei o teu post. nem sabia o que lhe tinha acontecido depois.


beijinhos e bom fim de semana

Cristina disse...

catarina

ahhh, era deslumbrante aquilo. eu recortes não tenho, que não sou de guardar coisas, mas, lembro-me muito bem de como me hipnotizava :))

beijocas

sem-se-ver disse...

cristina, catarina e eu.

'tamos velhas! ou não... quem mantém as suas recordações e adorações intactas assim... :-)

(eu já estava a caminho dos 17 anos)