14 julho 2008

a verdade é que não sei muito bem


como dizer isto, nem tenho muito jeito para este tipo de apelos, mas lá vai: aqui há tempos, falei aqui de uma situação que me angustiou, daquelas coisas que nos deixam sem palavras, uma entre tantas outras, mas naquele dia tive vontade de deitar cá pra fora esse nó no estômago....era um filho a quem dei a notícia da morte da mãe, que me responde entre lágrimas que não sabia como lhe havia de fazer o funeral, lembram-se? Na altura, algumas pessoas me disseram que gostariam de ajudar e eu, lamentavelmente, não fiquei com os dados nem contactos. Não me passou pela cabeça, e seria muito difícil entre milhares identificar um nome. Hoje, lembrei-me desse dia na sequência de um outro drama, uma outra vida, um outro nó no estômago.
A D. Alcina, é uma senhora de 66 anos, raça negra, com alguns problemas de saúde. Sempre trabalhou. Após a morte do marido, criou sozinha em condições muito difíceis, trabalhando onde podia, 6 filhos hoje já todos adultos. Fazem a sua vida, ao que percebi, sem grande ligação à mãe. Um deles, voltou a casa na sequência de dependência por doença. Está acamado. É ela que cuida dele. Esta mulher, dispõe como único sustento, de um subsídio de cerca de 300 euros por mês. A segurança social, pede-lhe papeis e certidões e declarações dos filhos e assinaturas e mais comprovativos e mais tudo aquilo que ela desistiu de tentar entender e muito menos de conseguir. Não tem possibilidades de andar para trás e para a frente a satisfazer caprichos de quem não tem noção de que está a pedir o impossível. Vem sempre com um aspecto limpo e digno, mas cansado. Um rosto triste e profundamente marcado pela desilusão. Diz que não entende para que serviu trabalhar tanto, passar tanta dificuldade, criar filhos. Agora, nem para comer tem. "a minha doença é da fraqueza, dra". Come quando pode, compra medicamentos quase nunca. Quando lhe perguntei de que se alimentava, a resposta de sempre: sopa. Leite, compra-se 1 pacote quando recebe, dura o que durar até ao mês seguinte. Às vezes, compra umas bolachas. Tenta chegar ao filho o mais básico, mas falta tudo. Falta roupa de cama para o mudar( não pode comprar fraldas), falta roupa de vestir, faltam agasalhos. Já consegue dizer, porque no principio não contava, que o inverno é difícil de passar porque não tem roupa suficiente e a casa é fria. Falta sobretudo comida. Doí na alma ver o olhar triste e envergonhado desta mulher a assumir, com a dignidade possível, que há muitos dias em que não há nada em casa para comer. Quando perguntei como se aguenta uma vida assim, respondeu-me que esperava, e isso pede a Deus, já não viver muito tempo. Que só queria, ao menos, ver o filho manco... E perante o meu espanto, explicou: que ao menos não precise de quem lhe chegue um copo de água..
.
Ps-Este episódio fica aqui porque, na altura, quando falei do outro caso, me disseram que um blog também serve para pedir ajuda e eu concordei. A identificação, com o devido conhecimento e consentimento, fica na caixa de comentários. Usem o melhor que puderem.

22 comentários:

Cristina disse...

Alcina Furtado

Praceta Alexandre Cabral, nº8 1º dto
casal da boba, Amadora. 967739278

Anónimo disse...

Merece o meu comentário de aprovação pela sensibilidade que mostra...

Bem haja Cristina.

Anónimo disse...

apenas um nó na garganta, mas vivo muito longe para poder fazer algo..e depos aparecem uns filhos da puta a falar em tgv....

Álex disse...

vou pensar em como ajudar

Pézinhos N' Areia disse...

Este caso suscita-me algumas questões, no que respeita a esta frase:

- "(...)Após a morte do marido, criou sozinha em condições muito difíceis, trabalhando onde podia, 6 filhos hoje já todos adultos. Fazem a sua vida, ao que percebi, sem grande ligação à mãe(...)"

Não haverão mecanismos legais, sendo o caso sinalizado, pela Cristina, como médica, e com a colaboração dos serviços de acção social, no sentido, dos restantes 5 filhos serem chamados, para darem o apoio afectivo e material, à mãe, no caso de reunirem condições para isso ?

Não será isto um caso de abandono, por parte da família, como se verifica com crianças, e que leva à intervenção das CPCJ's ?

É que se a senhora não tivesse qualquer família, como muitos casos que há, seria uma situação, mas tendo a citada senhora mais 5 filhos... Há alguém que não está a cumprir o seu dever.

Não haverá uma lei, para coagir estes filhos (ingratos), a "chegarem-se à frente" ... ?

Se não há, devia de haver ...

Cristina disse...

pezinhos..
boa questão, mas não há modo de obrigar um filho a tomar conta dos pais. não são de facto obrigados (facto de que a senhora se lamenta muito, repetindo sistematicamente o que passou para os criar) nem penalizados se o não fizerem.. aconteceram-me/nos casos, ha anos, de mandarmos os bombeiros levar os velhotes a casa de algum filho e eles dizerem, e escreverem, e assinarem, que não recebiam. não se pode fazer nada.
de facto, não sei se ouviu falar recentemente na intenção do governo Socrates de não fazer depender estas ajudas, do preenchimento de papeis por parte dos filhos. é que se os filhos se interessassem, provavelmente, em grande parte das situações, não era preciso o pedido....

o que acontece, é que grande parte dos dramas resultam exactamente daí: a familia existe mas não se lhes pode exigir nada. e sabem muito bem responder que o cidadão descontou, o Estado que resolva.

Pézinhos N' Areia disse...

Se é assim, está mal, e a lei deveria ser revista.

Porque um idoso pode tornar-se um ser tão dependente como uma criança de tenra idade, com idêntica necessidade de protecção.

Do mesmo modo que a lei prevê a obrigação dos pais garantirem protecção aos filhos. E por exº no caso de negligência com os filhos, haver consequências criminais.

Desde que se comprovasse que os filhos tinham capacidade para apoiar os pais, tb deveria ser considerado juridicamente, uma negligência, este caso que a Cristina conhece e expôs aqui. E deveria ter consequências.

Creio que há lacuna jurídica, nestas situações.

Desculpe a minha escrita, mas estou cansada, de qq modo, penso que terá percebido o que expus.

um abraço

Cristina disse...

assim é amiga. as leis não podem obrigar ninguém.

e se reparar bem, os pais também não são obrigados a tomar conta dos filhos...ou seja, se eu tiver um filho e decidir que não o quero, se decidir entregá-lo ao Estado, acontece-me alguma coisa?? não. ninguém me obriga a ficar com ele.
só que, infelizmente, ninguém adopta idosos, embora ultimamente já se tenha começado a falar nisso.
diz que no caso de negligência com os filhos, existem consequências criminais. certo, no caso dos pais, se se provar, também. se estiverem a cargo e dependentes de uma pessoa que negligencia ou maltrata, existem consequencias.

a questão é chegar à situação de assumir o encargo. quem assume, tem deveres, quem não assume....


do que a minha amiga fala, é de uma questão ética, humana, de sentimentos, afinal, que nos deveriam vincular à familia. mas é só isso.

um grande beijo

Anónimo disse...

Jurídicamente, os filhos estão obrigados a "prestar alimentos" aos pais ( ou seja, a sustentá-los patrimonialmente ou a ajudá-los ) caso os pais necessitem e os filhos tenhma meios económicos - vem previsto no Código Civil Português, nps artºs 2003º a 2009º. Esta obrigação dos filhos ( e de outros parentes, incluindo irmãos, tios, padarastos e madrastas ) está antes da obrigação do Estado.È um mecanismo legal que se pode usar mas que caiu em desuso nesta sociedade egoista, em que os filhos preferem ter Plasmas, Ippods, férias a crédito e outras coisas do género e remeter para o Estado a incumbência de tratar dos pais deles.

Uma jurista ( juiz de profissão), leitora habitual e silenciosa do blogue, mas que não conseguiu ficar em silêncio perante o post .

Cristina disse...

Obrigada pelas visitas e pelo comentário.

obviamente aceito o que me diz, mas então, que é feito dessas leis?? é que em tantos anos de profissão (20), nunca a vi aplicada. ou seja, nunca vi algum tribunal obrigar os filhos a prestar assistência aos pais. Nunca.

na verdade, se um filho diz que não tem nada a ver com o assunto, de facto, por aí fica.

de qualquer modo, é impossivel exigir aos filhos que tomem conta dos pais, estou certa? pelo menos, nunca ate agora se conseguiu impor os pais a alguem...

um abraço

Cristina disse...

ps- só uma curiosidade: é a mesma pessoa que comentou, há muito tempo, um post sobre a redução da pena de um pedófilo?

HRP Fast disse...

Cristina.....esses fatos relatados só podem , na devida proporção ,espantar a voces europeus.....aqui do outro lado do Atlantico muito disso ainda existe....menos agora...mas existe.....
Mas há uma diferença ....no Brasil filhos são sim obrigados a pagar pensão a mãe e pai desvalidos.....desde que se comprove a condição social dos filhos e pais....
Quanto a mandar ajuda...bem que gostaria que me sobra bastante.....mas para aí fica dificil....bom dia .

Once disse...

Querida Cristina .. leis e considerações à parte, sempre fáceis do lado de fora, em primeiro lugar um abraço pela sensibilidade demonstrada *

.. tenho por aqui felizmente um grupo de gente solidária que já me ajudou por diversas vezes em situações semelhantes.
Sei que não podemos resolver completamente a questão.
Mas podemos ajudar no tempo. Ajudar a colmatar a grande diferença que existe em sair de casa com o pequeno-almoço tomado, e não ter em casa nada para acalmar o estômago. Só isso. Assim, tão simples quanto ..

Beijinho

Cristina disse...

hrp

e conseguem levar um caso desses até uma decisão judicial?

Cristina disse...

once

e a nossa desatenção é tão chocante não é? nestes dias sinto exactamente o mesmo que senti quando estive em Cuba: o nosso desperdicio, as toneladas da comida, moveis, roupas, brinquedos, livros, que deitamos fora, eram o céu, pra esta gente. durante uns tempos andei incomodada com os caixotes do lixo...

um beijo

Anónimo disse...

Muito bem.

Pedro Correia

Anónimo disse...

Satisfazendo a "curiosidade": não, não sou a mesma pessoa.

No resto, está certa : o amor e o carinho não se decretam e não se executam coercivamente e por isso nehum Tribunal no mundo consegue "obrigar" os pais a cuidarem ( afectivamente ) dos progenitores, assim como nenhum Tribunal no mundo consegue obrigar os pais a "gostarem" dos filhos.
Mas já se pode executar judicialmente uma qualquer prestação de facto ou uma qualquer prestação de dare a cargo de alguém que não quer cumprir voluntáriamente: isto é, fixada a prestação de alimentos ( quantia mensal) a cargo do filho ou filha, caso a mesma não seja voluntáriamente prestada ou cumprida, o Tribunal executa-a - através da penhora de salários ou rendimentos ou da venda de bens titularidade desses filho obrigado e relapso e transfere-a/disponibiliza-a para os pais, em pecunia.
Todas estas providências que a lei civil prevê t~em que ser "pedidas" por alguém, em tribunal - no direito civil, os tribunais/Juízes apenas podem debruçar-se e apreciar e decidir os casos e situações que sejam postas/colocadas por alguém - o Juiz não tem o poder de , por si só ( em jargão jurídico, ex officio) resolver as "situações".

Grata,
A jurista do com. de 15, 11.10

Cristina disse...

pois, e quem está em situação de total dependencia de alguem, sabe ou pode lá, entrar com acções dessas....

gratos, nós.

um beijo :)

Pézinhos N' Areia disse...

"o amor e o carinho não se decretam " ........ gostei da frase, Cara Jurista.

Aprendi essa frase, na minha própria "pele", em relação ao incumprimento do poder paternal, por parte do pai, da minha filha.

Por mais acções e coacções judiciais, que eu (in)tentasse, nada o faria obrigar a fazer aquilo, que ele não queria fazer, e que eu queria que ele fizesse.

Ou seja:

- Amar como pai a filha, que temos em comum !


Herdei com essa constatação, a herança eterna do maior sentimento de culpa da minha vida:

- A escolha daquele Pai para a minha Filha.


E amiúde, a filha atira-me "essa pedra":

- Porque escolheste esta pessoa, para meu Pai ?


Fica o silêncio da culpa ... "no ar".

LM disse...

Vou ajudar, da melhor forma que posso.
Obrigada por tudo.
Beijo

Cristina disse...

pezinhos

não faça isso a si própria...a sua filha é talvez demasiado jovem para entender os erros dos outros, se é que são erros. nós fazemos o que, à luz do momento, nos pareceu bom. e infelizmente é o tipo de ensinamento que só aprendemos na pele, não há outra maneira. é bom que ela saiba que a vez dela chegará. nessa altura, o que menos falta lhe fará é a condenação. o erro é suficiente castigo.

Cristina disse...

LM

obrigada por ela :)

beijinhos