06 julho 2008

da série a vida distribui a suas flores pelos espíritos afoitos...


-E, falando por hipótese-disse-, seria possível fazer uma viagem directa sem carga nem passageiros, sem parar em nenhum porto, nem nada?

o comandante disse que só era possível por hipótese. (...) A única coisa que permitia saltar por cima de tudo era um caso de peste a bordo. Declarava-se quarentena no navio, içava-se a bandeira amarela e navegava-se em emergência. O comandante Samaritano tivera de o fazer várias vezes pelos muitos casos de cólera que se apresentavam no rio, ainda que depois as autoridades sanitárias obrigassem os médicos a declarar disenteria comum. Aliás, muitas vezes na história do rio se tinha içado a bandeira amarela da peste para fugir aos impostos, para não recolher um passageiro indesejável, para impedir inspecções inoportunas. Florentino Ariza encontrou a mão de Fermina Daza por baixo da mesa.
-Pois bem-disse, -Vamos a isso.
O comandante ficou surpreendido, mas logo, com o seu instinto de raposa velha, viu tudo claramente.
-Eu mando neste navio, mas o senhor manda em nós-disse. -De modo que se está a falar a sério, dê-me a ordem por escrito e começamos já. (...)
E foi assim que o Nueva Fidelidad zarpou ao amanhecer do dia seguinte, sem carga nem passageiros e com a bandeira amarela da cólera a flutuar de alegria no mastro maior. (...)
Na véspera da chegada fizeram uma grande festa com grinaldas de papel e lanternas coloridas. A chuva cessou ao entardecer. O comandante e Zenaida dançaram muito juntos os primeiros boleros que nesses anos começavam a estilhaçar corações. Florentino Ariza atreveu-se a sugerir a Fermina Daza que dançassem a sua valsa confidencial, mas ela recusou. (...) Bebeu tanto licor de anis que tiveram de ajudá-la a subir as escadas a teve um ataque de riso com lágrimas que chegou a assustar toda a gente.Porém, quando conseguiu controlá-lo no remanso perfumado do camarote, fizeram amor tranquilo e são, de avós maltratados, que iria fixar-se na sua memória como a melhor recordação daquela viagem lunática. Já não se sentiam como noivos recentes, ao contrário do que supunham o comandante e Zenaida e ainda menos como amantes tardios. Era como se tivessem saltado por cima do árduo calvário da [respectiva] vida conjugal e tivessem entrado directamente e sem mais delongas no amor. Seguiam em silêncio como dois velhos esposos escaldados pela vida, para lá das armadilhas da paixão, para lá das trapaças brutais das ilusões e dos reflexos dos desenganos. Para lá do amor. Pois tinham vivido juntos o suficiente para se darem conta de que o amor era amor em qualquer tempo e em qualquer lugar, tanto mais denso quanto mais próximo da morte.
Acordaram às seis.Ela com a dor de cabeça perfumada de anis (...) no entanto, estava suficientemente lúcida para se dar conta de que não era o efeito do anis mas sim a iminência do regresso.
-Vai ser como morrer-disse.
Florentino Ariza surpreendeu-se porque era o adivinhar de um pensamento que não o abandonava desde que começara a viagem de regresso. Nem ele nem ela podiam imaginar-se noutra casa que não fosse o camarote, comendo de maneira que não a do navio, integrados numa vida que lhes seria alheia para sempre. Era, com efeito, como morrer. (...)
Quando já não restava nada que se comesse nos pratos, o comandante limpou os lábios com a ponta da toalha e falou numa gíria impudente que acabou de uma vez por todas com o prestígio do bem falar dos comandantes de rio. Pois não falou por eles nem para ninguém, e tentava chegar a um acordo com a própria fúria. A sua conclusão, ao cabo de uma longa fieira de impropérios violentos, foi que não via como sair do imbróglio em que se tinha metido com a bandeira da cólera.
Floretino Ariza escutou-o sem pestanejar. Depois olhou pela janela o círculo completo do quadrante da rosa náutica, o horizonte nítido, o céu de Dezembro sem uma única nuvem, as águas para sempre navegáveis e disse:
-Sigamos em frente, sempre em frente, outra vez até La Dourada.
Fermina Daza sentiu-se estremecer porque reconheceu a antiga voz iluminada pela graça do Espírito Santo e olhou para o comandante: ele era o destino. Mas o comandante não a viu, porque estava inundado pelo tremendo poder de inspiração de Florentino Ariza.
-Está a falar a sério?-perguntou-lhe.
Desde que nasci-disse Florentino Ariza- nunca disse uma única coisa que não fosse a sério.
O comandante olhou para Fermina Daza e viu nas suas pestanas os primeiros pingos de um orvalho de inverno. Depois olhou para Florentino Ariza, o seu domínio invencível, o seu amor impávido, e ficou assustado pela suspeita tardia de que é a vida, mais que a morte, que não tem limites.
-E até quando pensa o senhor que podemos continuar neste ir e vir dum caralho?- perguntou-lhe.
Florentino Ariza tinha a resposta preparada há já cinquenta a três anos, sete meses e onze dias com todas as suas noites.
-Toda a vida-disse.
.
O amor nos tempos de cólera
GabrielGarciaMarquez

12 comentários:

Lola disse...

Cristina,


Lindo.

Já encontramos escrito ( e bem) aquilo que sentimos.


E la nave va...

Beijos grandes

mar disse...

Como são perfeitas estas tardes de verão com um bom livro para ler, e uma espriguiçadeira...... :)
Esse livro ainda não li, mas já apontei a sugestão :)*****

mar disse...

Ups.... os erros :) espre......

Cristina disse...

mar

não percas, please. é um hino ao amor. e ainda bem que gostaste, é que transcrevi tudo à unha....lol

Cristina disse...

lolita

de facto, sim. depois disto a vidinha parece tão maiszomenos...


beijocas graaandes!

Animal disse...

aqui não se podia fazer isso: vinha logo o helicóptero do INEM estragar o barato....

Cristina disse...

pá, são as ironias da civilização...

Fado Alexandrino disse...

Um filme a não perder.
É, como disse no meu blog, um hino de amor e ainda bem porque aqui o Javier sendo amado só mata de amor.

dalloway disse...

E eu que pensava que depois de comprar a banda sonora já não tinha que pensar mais sobre o assunto :)
Lá vou eu ler o livro. Só mesmo a Cristina para me fazer uma coisa destas!!

Desde que visito este blogue acabo sempre por me lembrar de pessoas que não conheço. Quando comprei a banda sonora do filme lembrei-me da Cristina. Quando comprei o bilhete para ir ver Herbie Hancock lembrei-me do Fado Alexandrino.
Isto está bonito está!

*adorei a primeira vez que a Cristina usou este titulo para um post. Lembro-me na altura ter achado um titulo subliminar e hoje reafirmo isso mesmo.

Por isto e por mais do que isto aqui fica uma grande beijoca na ponta do nariz

Cristina disse...

dalloway

pois eu também me lembrei de si querida! a ver se lhe aguçava a curiosidade :)))

quando se diz que a blogosfera se transforma numa segunda família, é por isso mesmo ;)

beijocas, onde quiser.

Álex disse...

ora aqui está a prova de que vale sempre a pena 1ª ler o livro de dps, talvez, ver o filme. Porque eu, apesar de fã de cinema, aprecio muitíssimo o prazer das belas palavras que se encadeiam umas nas outras quais eras por um tronco acima. há tanto que não leio GGM...

Alien8 disse...

Cristina,

Obrigado por me relembrares este magnífico pedacinho do livro. Florentino Ariza, o tal nome que não sabes se existe (:), só tinha duas hipóteses: toda a vida ou (mais) nada. Escolheu o que tinha que escolher, e sabia-o desde sempre. Ainda por lá anda o navio, naquele ir e vir de um c...., para provável desgraça do comandante. E daí...