05 abril 2008

“com uma mentira pode ir-se muito longe, mas sem esperança de voltar”.


É a primeira vez que um filho de desaparecidos durante o regime militar argentino entra com uma acção contra os pais adoptivos. A acção judicial foi iniciada pela filha adoptiva María Eugenia Sampallo Barragán, de 30 anos, e é um marco na justiça argentina. Os seus pais verdadeiros são Mirta Mabel Barragán e Leonardo Ruben Sampallo, militantes do Partido Comunista Marxista Leninista (PCML) presos pelo regime militar em Dezembro 1977. Na época da prisão, Mirta Barragán estava com seis meses de gravidez e deu à luz uma menina lá por Fevereiro de 1978. María Eugenia foi separada da mãe logo depois do nascimento e oferecida por um capitão do exército Enrique Berthier ao casal Osvaldo Rivas e María Cristina Gómez Pinto. Os pais verdadeiros de María desapareceram e é provável que o pai verdadeiro nunca a tenha visto. Hoje, fazem parte das cerca de 30 mil pessoas desaparecidas durante a Guerra Suja.
Acredita-se que cerca de 500 crianças, filhas de prisioneiros políticos do regime militar, tiveram o mesmo destino: separadas de seus pais biológicos e entregues a casais simpatizantes do governo.
No caso de Maria Eugénia, vários anos depois, os "pais" explicaram à então adolescente que tinha sido abandonada na porta do Hospital Militar de Buenos Aires e recolhida por um amigo da família, o capitão Enrique Berthier, que a havia entregado. Meteram os pés pelas mãos: ocultaram a sua origem dando diversas versões, como que sua mãe tinha morrido num acidente ou que era hospedeira de bordo e vivia na Europa. A revelação transformou-se numa bola de neve, o casal não suportou a tensão separou-se dois anos depois da história inventada. E um dia, quando esta voltou para casa, a mãe Cristina Gómez, com quem esta tinha ficado, anunciou que “umas velhas” queriam separá-la dela. Tratava-se das Avós da Praça de Maio, que procuravam as crianças nascidas nos centros de tortura da ditadura militar cujas mães tinham sido assassinadas. Mas um teste de sangue realizado para verificar se ela era um desses casos deu resultado negativo. No entanto, não havia como voltar atrás e estava claro que um grave engano pairava no ar. O ambiente tornou-se irrespirável e Cristina Gómez fazia constantes críticas à garota. “Dizia-me que eu não estava suficientemente agradecida pelo que tinham feito por mim e que se não fosse por eles eu estaria numa vala”, declarou Sampallo no tribunal. Quando completou 19 anos, saiu de casa sem levar nenhuma recordação da vida que teve com os que se proclamaram seus pais. Sampallo, que ainda desconhecia seu nome, voltou a submeter-se a um teste em 2000. A Comissão Nacional pelo Direito à Identidade (Conadi) realiza ainda hoje campanhas que estimulam qualquer pessoa que tenha dúvidas a fazer os exames, e todos aqueles que tiverem um parente desaparecido a doar amostras de DNA para facilitar as identificações. O teste foi um sucesso e pela primeira vez desde que era menina María Eugenia soube a verdade sobre a sua origem: era filha de Leonardo Sampallo e Mirta Barragán, ambos foram sequestrados com ela grávida de seis meses. O resto da história já conhecia e o advogado que a representa não deixou nenhuma brecha na acusação: subtração, mudança de identidade e falsificação de documento público.
"Eles não são meus pais. Eles são meus sequestradores", disse Sampallo que descobriu que não era filha biológica do casal em 2001, depois de fazer um teste de DNA.
Um tribunal federal de Buenos Aires condenou agora o pai adoptivo Osvaldo Rivas, a sete anos de prisão, e a mulher, María Cristina Gómez Pinto, a oito. Foram acusados de falsificar documentos e esconder a verdadeira identidade da filha adoptiva.
O ex-capitão do Exército Enrique Berthier foi condenado a 10 anos de prisão por ter tirado Sampallo dos pais verdadeiros e entregue a menina a Rivas e sua mulher, que registaram Sampallo como sua filha legítima. E, como diz Milton Ribeiro, espanta a rapidez e eficiência da Justiça Argentina (propositalmente em maiúsculas). Como é que um processo que começou em 2007 tem data marcada para sua terminar e esta será em 4 de abril de 2008? Como pode? Em segundo lugar, a rapidez e eficiência da Justiça Argentina que ordenou em 2001 que fossem realizados exames de DNA dos “pais adotivos” de María, da própria e dos parentes de seus pais. Tendo em mãos o resultado, ela permitiu, no mesmo ano de 2001, que María Eugenia alterasse seu sobrenome de Rivas Pinto para Sampallo Barragán. Tudo em 2001. Em terceiro lugar, a rapidez e eficiência da Justiça Argentina, pois, em 2007, o casal Rivas processou María por calúnia e difamação. Após perderem a causa, María, no mesmo ano, resolveu abrir processo contra os falsos pais . (...)
A mãe “de adoção” de María dá declarações assim:
- Mocosa maleducada, tenías que ser hija de guerrilleros para ser tan rebelde.
Como resposta, María, cuja voz é conhecida da imprensa apenas por seus depoimentos à Justiça, não diz palavra. E está certa, não tem que fazer cenas nem buscar a piedade fácil que uma órfãzinha mereceria. Suas poucas fotos revelam uma mulher doce e tranqüila. Eu invejo a Argentina.

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Nós também.

8 comentários:

Beatriz disse...

"Mocosa maleducada, tenías que ser hija de guerrilleros para ser tan rebelde."
Fugiu-lhe a boca p'ra verdade! 'Tadita da rapariga...
Um beijinho

Lola disse...

Cristina mais linda,

Li há muito tempo um livro de Vasquez Montalbán, sobre este tema.
Chama-se "O Quinteto de Buenos Aires".

Ainda bem que as coisas mudaram.

Beijinhos

Milton Ribeiro disse...

Saiu a decisão. Foram condenados, mas esperava-se mais. Obrigado pela referência!

Beijo.

Milton Ribeiro disse...

Quem manda comentar e antes e ler depois...? Dás todos os detalhes da decisão. Desculpe!

Cristina disse...

milton, processo irrepreensivel, como você bem diz. quanto mais rapido, mais sofrimento se evita.

obrigada pela visita, encantada :)

um beijo

Cristina disse...

lolita bonita

o Milton faz também referencia a Duas Vezes Junho, de Martín Kohan.

não conheço qualquer deles..:/

um beijo

Cristina disse...

beatriz

oi fofinha, casos dificeis de entender estes, não? ó mundo...

Desinformador disse...

Não é suposto os filhos serem o espelho da educação recebida dos pais? Se assim for, a 'mocosa maleducada' mor é quem proferiu estas palavras...

Ou então a rebeldia é genética, e compreende-se assim que seja filha de guerrilheiros.