12 março 2008

Diana Vreeland - a moda, a religião e os livres pensadores


Diana Vreeland (1906-1989) praticamente inventou a carreira de editora de moda tal qual a conhecemos hoje : uma profissional que, além de informar sobre as novidades, deve ter sentido crítico e olhar apurado para descobrir o que vai (ou não) ser tendência. Entre outras coisas, transformou a Vogue América na bíblia fashion mundial.
Teve uma infância difícil, marcada por constantes críticas da mãe, que a julgava feia e a comparava sistematicamente com a irmã. De facto, nunca foi nenhum exemplo de beleza. Talvez por causa disso, exibia um visual um tanto exótico na vida adulta, com direito a cabelos negros e baton e verniz vermelhíssimos, contrastando com a pele cheia de pó de arroz. Usava, ainda, bijutarias enormes e extravagantes. O complexo em relação à aparência parou de incomodá-la quando conheceu o banqueiro Reed Vreeland, que se tornaria seu marido.
Em 1937 conheceu Carmel Snow, que, impressionada com seu estilo e carisma, a convidou para trabalhar na Harper's Bazaar - na época dirigida por Carmel. Tornou-se editora de moda em 1939. Fez um trabalho brilhante, substituindo as damas da sociedade que posavam para as fotos por mulheres realmente interessantes, dignas da admiração das leitoras. A vida mudou 25 anos depois, quando um empresário resolveu dar a Vogue como presente à mulher, que exigiu a contratação de Diana para o cargo de directora. Transformou a revista num verdadeiro ícone fashion, uma leitura obrigatória para os amantes do assunto. Recebia um salário altíssimo.
Diana possuía uma capacidade incrível para descobrir talentos e impulsionou a trajectória profissional de muitas modelos e diversos fotógrafos e estilistas. Imortalizou, por exemplo, a imagem de musas como Twiggy, Marisa Berenson, Verushka e Lauren Hutton. Sabia captar a beleza de mulheres consideradas "esquisitas" - Barbra Streisand e Anjelica Huston, por exemplo. O seu círculo de amizade era bastante ecléctico: Rudolf Nureyev, Coco Chanel, Jackie Kennedy, Andy Warhol...
O escritório era vermelho vivo, mesma cor de seu apartamento na Park Avenue. Seguindo a linha excêntrica, comia um sanduíche de pasta de amendoim e bebia uma dose de uísque na hora do almoço. Fumava muito, odiava reuniões, as quais considerava inúteis, e dava ordens por meio de telefones e memorandos ditados às assistentes. Aliás, Diana instruía as funcionárias para que usassem bijuterias barulhentas, de preferência com guizos, para que soubesse sempre quando estavam por perto. Costumava afirmar sobre as leitoras: "Sei o que elas vão usar antes de usarem. O que vão comer, antes de comerem. E até mesmo para onde vão, antes mesmo de o sítio existir." Foi demitida da Vogue em 1971 por "excesso de criatividade" - e também por estourar o orçamento da revista. A certa altura, havia equipes inteiras a fotografar em várias partes do mundo. A sua saída teve doses de humilhação e crueldade, porque toda a gente já sabia da sua demissão antes do comunicado oficial. Passou seis meses viajando pelo mundo, para espairecer, e nunca mais pisou no prédio da Condé Nast.
Tornou-se consultora do Costume Institute of the Metropolitan Museum of New York, coordenando muitas das memoráveis exposições de moda e estilo no museu, como a da China Imperial e a dos figurinos de Hollywood. Viva, espirituosa, sarcástica, madame Vreeland amava frases de efeito, como
"Dinheiro ajuda a tomar café na cama. Estilo ajuda a descer uma escada"
“Sem emoção não há beleza”
“Nunca tema parecer vulgar, mas sim entediante
“A maior vulgaridade é qualquer imitação da juventude e da beleza”
[de, The Power of Style de Annette Tapert e Diana Edkins.]
Passou os últimos meses na cama, praticamente cega, recebendo a visita diária do amigo André Leon Talley (editor-adjunto da Vogue América), que lia e lhe contava as novidades da cidade. Sobre a cegueira, teria comentado, sarcasticamente: "Meus olhos cansaram-se de ver coisas bonitas."
. fonte principal:modalmanaque
E porque fui buscar Miss Vreeland? A partir de uma palavra: REGRAS. As regras da Moda. Vreeland detestava seguir regras. Se precisasse delas, criava as suas próprias.
Vreeland considerava o acto de se vestir como uma actividade lúdica e inspiradora, e não um conjunto de regras e definições do que é correto, apropriado, de bom tom. Bastava que o resultado LHE agradasse. Tornou-se famosa por isso, mas pagou também um preço importante.
Quase poderíamos voltar ao post abaixo sobre o medo do ateísmo, a "ameaça" da própria tomada de decisões sem apoio de alguém ou algo além de "si mesmo" e a difícil arte de assumir a própria vontade e não a vontade de alguém para além de nós. Decisões solitárias , socialmente arriscadas e, muitas vezes, caras. Um ateu, como outro qualquer livre pensador, "sabe" que é o responsável por qualquer atitude que venha a tomar e que tem de criar uma Ética própria, a maioria das vezes alvo de desconfiança, mas pela qual se guia acima de tudo. E definitivamente, é um caminho sem retorno.

7 comentários:

Alien8 disse...

Olha, Cristina, gostei do post, apesar de (eu) não ser de modas.

A cena dos guizos é notável :)

Agora aquele almocinho de sanduíche de pasta de amendoim e ... uísque é quase criminoso...

Bom finale, com remissão para o ateísmo e o livre pensamento!

Beijinhos.

Desinformador disse...

Muito interessante! That's my kind of woman!

No rules, great mag! Mas o filme 'o diabo veste Prada' é baseado na Diana? ou é outra editora de outra revista?

Despdida por excesso de criatividade parece uma desculpa de uma empresa portuguesa!

Cristina disse...

desi

o diabo veste prada é da Anna Wintour, falei nela há pouco tempo. essa era/é mesmo terrivel, a ambição ficou clara quando, entrevistada pela então editora-chefe da Vogue, Grace Mirabella, para uma posição importante na revista, deixou claro à jornalista que na verdade desejava mesmo era o lugar dela. entrou para a revista em 1983. :)))

Cristina disse...

alien

obrigada:)

por acaso, gostei de o escrever lol

beijocas

dalloway disse...

Miss Vreeland pode nunca ter sido um exemplo de beleza mas digo-lhe Cristina que depois de ter visto algumas fotos que Cecil Beaton (1904-1980) tirou a Miss Vreeland fiquei colada ao chão, especialmente pela beleza das suas mãos.

O mundo da moda é realmente fascinaste e as expressões usadas e ousadas por esta senhora fazem as delicias de qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade e bom gosto (bom senso é outra história)

Gostei duplamente deste post porque a Cristina conseguiu presentear-nos com a moda, ateismo, religião e ética. O seu ultimo paragrafo, mais precisamente..."quase poderíamos voltar ao post abaixo...."está repleto de verdades causticas que dificilmente poderei acrescentar o que quer que seja.

A única coisa que posso acrescentar é que não sei o que é que a Artista anda a comer ultimamente porque reparo que há 3 dias a esta parte anda a postar antes das 8 horas da manhã.
Não se esqueça de dormir, não!

Cristina disse...

dalloway

pois, acredito perfeitamente que alguem tenha feito com ela o que ela costumava fazer com outras :))
e é engraçado como os conceitos são validos em qualquer aspecto da nossa vida, não é?
outra coisa.
querida amiga. como boa observadora, reparou num facto que é um sinal muito esclarecedor do motivo pelo qual chamei os amigos para o CC...só estou por aqui tão cedo porque simplesmente não consigo dormir descansada como antes. acordar cedo é, em mim, um sinal de perturbação/preocupação/nervosismo ou mesmo tudo junto.

então, venho até aqui e tento distrair-me. portanto, quando vir posts à tarde, estará tudo bem melhor.

beijos

Animal disse...

isto é muito profundo e cena de gajas. não tenho habilitações pra comentar estas coisas...