02 janeiro 2008

vejamos.



Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca".
Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto.
"Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".
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11 comentários:

Alien8 disse...

Cristina,

Off-topic: sim, gostei da música, muito obrigado :)

Fiz-te uma pequena referência no meu post de Ano Novo, mas ainda não a deves ter visto...

Um beijo.

dalloway disse...

Caramba Cristina...agora é que fiquei mesmo sem palavras!

Gi disse...

Curioso, hoje em alguns sítios que visitei Carlos Drummond de Andrade estava presente e eu, que até gosto dele, só me apetecia contrariá-lo, é daqueles dias que me armo em contestatária. Bom fui reler algumas coisas que tenho dele para ver se o mal era dele ou meu e era meu :) encontrei lá no meio algo que vem nesta linha de raciocínio que aqui deixas mas em relação aos escritores.

"Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira."

Eu acho que eles não olham para as coisas. Eles sentem as coisas. O mesmo que para ler poesia,de nada servem os olhos e a cabeça se o coração não conseguir ler .

beijo. BOM ANO

Carminda Pinho disse...

É que mesmo sem óculos se consegue ver tão bem, o que nos ensinam...:)
É uma questão daialma...

Bjs

SA disse...

olha um olho igual ao meu..:)

SA disse...

o texto é muito belo , parabéns pela escolha

Cristina disse...

Alien

já lá fui ver :))
obrigada, um beijinho

Cristina disse...

dalloway

fala não linda...:)) beijo.

Cristina disse...

gi

é engraçado isso. sabes que quando lido com artistas( tenho um por aqui) sinto essa "impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira" como um defeito, ou uma limitação. é o que paradoxalmente, ou não, os faz tão despreparados para a vida..:)

um beijo

Cristina disse...

carminda

afinal é preciso ganhar olhos e alma de artista :))

um beijinho

Cristina disse...

sa

obrigada, ainda bem que gostaste, eu também. :))

um beijinho