10 janeiro 2008

nascida a 9 de Janeiro de 1908

Simone de Beauvoir teria feito ontem 100 anos se fosse viva. A revista Nouvel Observateur celebrou o acontecimento com uma foto muito peculiar: a de uma mulher completamente nua, de saltos altos, com os braços erquidos a ajeitar o cabelo, de costas. E diz que aquele é o verdadeiro rabo da Simone Beauvoir. Segundo Francisco J Viegas, As feministas protestaram, em bando, porque a nudez de Beauvoir “não ilustra em nada os seus escritos, o seu feminismo ou a sua personalidade”. Como ele, eu julgo que é mentira.
Há algum caminho mais perfeito para a alma de uma pessoa que a linguagem do seu corpo nu? Parece-me que não.

Vamos lembrá-la pelas suas próprias palavras?
Há 1 ano publiquei esta entrevista de 1959 com o seguinte comentário:
Esta entrevista com Simone de Beauvoir nunca tinha sido vista inteiramente. Censurada pela direcção da Radio-Canada, sob pressão do arcebispado de Montreal, a entrevista não foi para o ar, conforme previsto. Por ocasião da morte de Simone, em 1986, a exibição da entrevista foi programada, mas as eliminatórias da temporada de hóquei ocuparam a grade do horário, e o público só veria um trecho dos 40 minutos originais durante os quais Beauvoir fala, entre outras coisas, do existencialismo, da religião e do casamento.Na sua página archives pour tous, o INA disponibiliza gratuitamente (bem como aluga ou vende) vários registos audiovisuais sobre Simone de Beauvoir. Alguns são fragmentos de filmes, mas há também entrevistas e cenas da vida de Beauvoir em diferentes épocas. Um acervo contendo mais de 60 vídeos relacionados a Simone, que podem ser vistos através do link abaixo archives pour tous - Simone de Beauvoir .
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Deixo ainda, um excerto de uma entrevista a John Gerassi em 1976.
(...)Tendo percebido que o capitalismo conduz necessariamente à dominação dos povos pobres de todo o mundo, massas de mulheres começaram a juntar-se à luta de classes – mesmo que não aceitassem o termo “luta de classes”.
Tornaram-se activistas.
Juntaram-se às marchas, manifestações, campanhas, grupos clandestinos e à esquerda militante. Lutaram, tanto quanto qualquer homem, por um futuro sem exploração nem alienação.
Mas o que aconteceu? Nos grupos ou organizações a que se juntaram, descobriram que eram tanto o segundo sexo como o eram na sociedade que queriam suplantar. (…)
As mulheres tornaram-se as dactilógrafas, as fazedoras de café desses grupos pseudo-revolucionários.
Bem, não deveria dizer pseudo.
Muitos destes grupos eram genuinamente revolucionários. Mas treinados, desenvolvidos, moldados numa sociedade orientada para o homem, e esses revolucionários trouxeram essa orientação para o seio do próprio movimento. Como é natural, esses homens não abandonariam voluntariamente essa orientação, tal como a classe burguesa não abandonará voluntariamente o seu poder.
Assim sendo, tal como pertence aos pobres destruir o poder dos ricos, também pertence às mulheres destruir o poder dos homens.
E isso não significa dominar os homens em alternativa. Significa estabelecer a igualdade. Tal como o socialismo, o verdadeiro socialismo, estabelece a igualdade económica entre todos os povos, o movimento feminista aprendeu que terá de estabelecer a igualdade de género através da conquista desse poder à classe dominante dentro do movimento, ou seja, aos homens.
Por outras palavras: uma vez dentro da luta de classes, as mulheres perceberam que essa luta não eliminaria a luta entre sexos. Foi neste ponto que me consciencializei do que acabara de dizer. Antes disso estava convencida que a igualdade de género seria apenas possível depois do capitalismo ser destruído e, consequentemente – e é este “consequentemente” que é uma falácia – deveríamos encetar, primeiramente, a luta de classes. Mas não é verdade que uma revolução socialista estabeleça necessariamente a igualdade sexual.
O proletariado acaba sempre por ser composto de homens. Os valores patriarcais mantiveram-se lá tanto quanto aqui.
E isso – esta consciência de que a luta de classes não integra a luta de sexos – é o que é novo.

5 comentários:

dalloway disse...

Depois de:
"Há algum caminho mais perfeito para a alma de uma pessoa que a linguagem do seu corpo nu? Parece-me que não."

É caso para dizer:
'Qual Simone Beauvoir qual quê?!'

Pêndulo disse...

Ora ora, as mulheres refilam e tal mas se um gajo lhes der uma Bimby passa-lhes logo a igualdade
:p

(acho que vou ser aqui crucificado eh eh)

dalloway disse...

Se eu tivesse uma bimby até ponha o pêndulo como um dos ingredientes para fazer um tipo de argamassa, mas como não tenho bimby e porque até acho que o pêndulo é um senhor gajo porreiro, só desejo que durma bem e que os sonhos sejam cor-de-rosa.

Cristina disse...

dalloway

mas olhe minha amiga, eu tenho cá a ideia de que sei onde encontrar o dito cujo alfa pendular. e se a gente lhe fizesse uma visita com um desses bixinhos aí em baixo? pode ser mesmo um que dê dores escruciantes quando morda...

Raimundo Narciso disse...

Vista deste ângulo a Simone não fica a perder.