20 janeiro 2008

"impossível é uma palavra grande criada por homens pequenos"



Se pensarmos bem, quando falamos de direitos dos homossexuais, imaginamos que estamos a falar de pessoas mais ou menos jovens, activas, com um nível sócio-económico relativamente alto. Raramente os imaginamos velhos, com as necessidades idênticas aos de todos os outros idosos. Talvez porque nos centramos na questão sexual e nos é difícil, ainda é, conceber a ideia de vida sexual nos idosos, então, imaginamos a coisa como um desvario da juventude que há-de passar um dia. Mas, com ou sem sexo, obviamente a vida em comum existe e à medida que a idade avança, diria que se torna mesmo o mais importante.
Assim como em relação aos casais hetro representa uma crueldade serem separados precisamente quando já pouco mais lhes resta que a companhia um do outro, o mesmo se passará em relação aos casais idosos homossexuais. E mais, haverá seguramente um sofrimento acrescido em ocultar esta parte de sua identidade num momento em que toda sua identidade já está suficientemente ameaçada.
Foi pensando nisso que nasceu a primeira residência para idosos homossexuais da Europa. Inaugurada em Berlim, ocupa um andar completo do centro geriátrico Astra Nielsen, no bairro de Pankow, tem 28 vagas, em quartos individuais e duplos, que podem ser ocupadas por casais de homens ou mulheres de idade avançada.

Outras experiências já foram feitas nos Estados Unidos (LGBT Aging Projects) que contam com cerca de 2,4 milhões de americanos gays, lésbicas ou bissexuais com mais de 55 anos (Gary Gates-Instituto Williams da Universidade da Califórnia) e na sequência de cada vez mais relatos de pessoas que foram desrespeitadas, afastadas ou maltratadas de formas que variam de doloroso a mortal, levando algumas ao suicídio.
Uma reportagem dos jornalistas Jane Gross e Dan Frosch do The New York Times em Outubro passado, fala sobre gays idosos que vivem em asilos e das dificuldades e preconceitos que a classe tem que enfrentar quando chega à terceira idade e mostra a dura realidade de quem tem de voltar para o armário, ou continuar nele. Um desses relatos, vem de Gloria Donadello, 81 anos: "olhavam para mim horrorizados, ou riam e faziam comentários, não me incluíam nas conversas, sentia como uma pária". Donadello acabou por mudar para uma comunidade que recebia gays e lésbicas."Para mim, foi uma escolha entre vida ou morte."
As iniciativas são já várias e vão desde lares a preparação especifica para apoio domiciliário.
Na Europa, começa agora caminhada para um envelhecimento com menos sobressaltos na comunidade gay.
"Aqui podemos ser nós mesmos", declarou ao jornal "Bild", Peter Mahling, um dos primeiros moradores do novo centro e membro da Village, uma organização de gays e lésbicas.
Em termos parecidos expressou-se Nora Mühlpfort, de 82 anos, que acha "fantástico" casais homossexuais poderem inscrever-se e que reservou vagas para ela e para a sua companheira desde há 25 anos, Gabrielle Stiller, de 62 anos.

9 comentários:

dalloway disse...

A discriminação é um acto cruel e mais cruel se torna quando as pessoas discriminadas são as que a Cristina fala neste post.

Confesso que não tinha pensado sobre esta dificuldade, sobressaltos e crueldade nos idosos homossexuais.
Há pouco tempo que conheço esta realidade e isto porque numa das minhas caminhadas diárias pelo pontão conheci um senhor inglês de 78 anos que vive no Estoril com o seu companheiro de 82, francês.
Sempre que nos cruzamos...lá caminhamos um pouco os dois e dia após dia a conversa começou a ficar mais intimista e fiquei a saber então que o senhor é homossexual, que o companheiro não está bem de saúde e que ambos gostariam de ir para uma residência de idosos e continuar as suas vidas com apoio.
Vivem em Portugal há 16 anos e são companheiros há 21.
O maior receio, a maior dificuldade que este senhor me explicou foi precisamente aquilo que está escrito neste post: a discriminação na residência dos idosos.
Disse que estava a fazer um levantamento de residências para idosos homossexuais, quer em França quer na Inglaterra visto que em Portugal não existe.
Os olhos dele ficaram sem brilho quando falou em deixar Portugal...

Cristina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cristina disse...

sabe Dallway? surgiu-me subitamente uma dúvida...não será esta solução uma forma de criar getos gay que eu tanto condeno? mas acho que não. ou seja: é uma fase da vida demasiado fragil para sujeitar as pessoas a este tipo de agressão. imagino o quão deprimente seja. e depois, se conseguirmos ir mudando as mentalidades a partir de quem tem as costas um pouco mais largas, este assunto também se resolverá.

esse caso que conta é muito triste...

dalloway disse...

Também condeno os guetos gays e algumas outras situações que a Cristina já falou no CC mas quando comecei a ler este post pensei logo no meu companheiro 'da caminhada'.
É isso mesmo Cristina, as fragilidades nesta fase da vida são demasiadas para que haja espaço interior e força suficientes para continuar a lutar pela diferença.
Não me parece que seja uma questão de comodismo mas de falta de energia psicológica e física que estas situações exigem.

Anónimo disse...

porque não telefonam uma à outra?

Cristina disse...

dalloway, o elfo doméstico está com ciumes...tadinho, rastejou rastejou, contorceu-se, mas agora foi demais pra ele, 2 comentarios da mesma pessoa!. andou por aí o fim de semana todo o desgraçado! que sofrimento, que angustia...pronto, pegue lá umas migalhinhas....mais logo volta. ou melhor nem se vai embora, o triste.

DUCA disse...

Cristina

Excelente post! Por ser lésbica fico-te particularmente agradecida por teres neste teu espaço falado num assunto que não passa pela cabeça da maioria das pessoas, excepto, pela dos gays, lésbicas ou bissexuais que vão avançando na idade e que muitas vezes se perguntam: "o que me vai acontecer quando precisar de ir para uma residência de idosos? Vou ser separada da minha companheira e sofro horrores no fim da minha vida, ou vou com ela e o mais certo é sermos alvo de chacota dos outros idosos o que também será terrível?"

O testemunho que a Dalloway partilhou é tocante, mas é bem a imagem do que se passa em Portugal. De facto, se nem residências decentes para a maioria dos casais de idosos existem e as que existem são caríssimas, como se vão preocupar com os casais gays, lésbicas ou bissexuais idosos?

Há países onde ser diferente da maioria é muito difícil e exige uma coragem suplementar.

Mais uma vez obrigada.

Beijo

Cristina disse...

Duca

obrigada eu por fazeres o favor de dar tanta atenção ao que eu escrevo :))

de facto é caso para perguntar onde estão estas pessoas, porque não se ouve falar nelas...como eu disse acima, talvez não seja a altura certa para enfrentar o mundo, acredito que se sintam completamente à-vontade convivendo com quem os compreende melhor. os ultimos anos, pelo menos, que sejam em paz.

mas duca, não é em Portugal, é no mundo inteiro! o que existe são casos pontuais e muito, muito poucos.


beijinhos

LM disse...

...pequenos e rastejantes.
Beijos