19 janeiro 2008

a propósito de uma carta de amor...


Eu não tenho hoje pelo casamento aquele horror de outrora, comparável ao horror do cavalo selvagem na manjedoura. Bem ao contrário: tenho corrido tanto pelo descampado da sentimentalidade, que uma manjedoura confortável em que mãos benévolas me sarrotem uma palha honesta -sorri-me como uma entreaberta paradisíaca. Eu precisava de uma mulher serena, inteligente, com uma certa fortuna(não muita), de carácter firme disfarçado sob um carácter meigo- que me adoptasse como se adopta uma criança: que me pagasse o grosso das minhas dívidas, me obrigasse a levantar a certas horas, me forçasse a ir para a cama a horas cristãs - e não quando os outros almoçam- que me alimentasse com simplicidade e higiene, que me impusesse um trabalho diurno e salutar, e que, quando eu começasse a chorar pela lua, ma prometesse -até eu esquecer...Esta doce criatura salvaria um artista de si mesmo - que é o pior abismo de um artista- e faria uma daquelas obras de caridade que outrora levavam gente ao calendário. Mas, ai! Onde está esta criatura ideal? Onde está esta luz no mar, esta torre de segurança, esta fonte de caridade? A não ser nalgum romance inédito de Octave Feuillet - em parte nenhuma.
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Eça de Queirós
Correspondência, Vol I, a Ramalho Ortigão.
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pois é, minha querida, mesmo sem Octave Feuillet, parece-me bem que encontraste a tua "luz no mar" . Guarda-a bem :)

6 comentários:

dalloway disse...

Este texto de Eça é sublime e deliciosamente poético.
Mas isto assim não vale Cristina, falar de cartas de amor e apresentar, primeiro a aNa a transbordar de felicidade e a querer renovar os votos do seu amor, depois um texto fantástico que me deixou completamente suspensa e que faz o favor de, entre outras coisas, lembrar que o amor é realmente uma coisa bonita e que estar apaixonado eleva-nos, tornando-nos mais bonitos nas acções, no querer e na vontade.
Ah...dizia que isto assim não vale porque não sou de ferro.

A aNa e a Maria devem ser pessoas bonitas, de bem com a vida e com muita sorte dos seus caminhos se terem cruzado. Desejo que sejam muitas as renovações dos votos.

*as conversas entre Eça e Ortigão são de uma acutilância de fazer parar os neurónios. Já li grande parte desta correspondência e continuarei a ler....sem pressas.

Mocho Falante disse...

Era de facto um Homem muito à frente do seu tempo

beijocas

Cristina disse...

dalloway

é, a aNa e a sua Maria são pessoas muito bonitas que se cruzaram no mundo virtual, em boa hora. :))

já lhes disse lá que quero estar nessa festa.

Lola disse...

Cristina, mais linda

O Amor é raro.

Quando aparece e temos o privilégio de o viver, não há leis nem deuses que o abalem...

E com véu e grinalda ou não, é maravilhoso...

Beijos

aNa disse...

cristina
não podes fazer-me assim estas coisas, que eu fico toda sem jeito :)
e encontrei, sim, a minha luz no mar. e sabes o que é mais maravilhoso nisso? é poder partilhá-la com pessoas queridas como tu. só assim faz sentido a felicidade.
um beijinho bom.
(vai pensando em domingo - há jogo em sintra)

dalloway
muito obrigada por essas palavras, ainda que a responsabilidade por elas seja da Cristina :)
tenho sorte, sim, em ter enontrado a Maria. mas não imagina o quanto a procurei, o quanto trabalhei para ter essa sorte! :)
(quem sabe isso não será um bom tema para um post)
abraço.

Cristina disse...

yep!, poder partilhar, é o melhor...:))

beijocas