07 janeiro 2008

amarre o relógio ao pulso e deixe-o bater em liberdade(Júlio Cortazar)



O envelhecimento da população é uma das características demográficas mais importantes do mundo ocidental. Este processo interessa a todos, penso, não só aos já idosos, mas a todos os que vêm atrás e que com eles partilham o dia-a-dia.

O relacionamento do idoso com o mundo caracteriza -se pelas dificuldades adaptativas, tanto emocionais quanto fisiológicas; a dinâmica psíquica do idoso é por vezes exuberante, rica e complicada, num contexto dos factores que o indivíduo traz consigo, a sua constituição e, os factores que lhe são trazidos pelo destino. O equilíbrio psíquico do idoso depende, basicamente, da sua capacidade de adaptação à existência presente, passada, e das condições da realidade que o cercam. Focar-me-ia desta vez, e porque penso que poderá ser o mais incompreendido, nos aspectos da senescência directamente relacionados com o próprio indivíduo.

Os Aspectos Pessoais estão, na maioria dos casos, directamente relacionados com o que foi a sua capacidade de adaptação em idades pregressas. Se os acontecimentos existenciais eram sentidos com alguma dificuldade ou sofrimento na idade adulta ou jovem, quando a própria fisiologia era mais favorável e as condições de vida mais satisfatórias e atraentes, no envelhecimento, então, quando as circunstâncias concorrem naturalmente para um decréscimo na qualidade geral de vida, a adaptação será muito mais problemática. De qualquer modo, parece haver uma alteração estrutural na dinâmica psíquica e uma nova arquitectura afectiva distinta da anterior. A característica mais comum na senilidade é a fragilidade emocional que traduz, muitas vezes, um conflito decorrente do grande esforço interno em conseguir uma satisfação existencial e uma adaptação à nova realidade. E aqui, não são exactamente as circunstâncias ambientais correlacionadas à senilidade quem proporciona a eclosão da sintomatologia neurótica, mas sim, as condições de personalidade prévia. Outros idosos, possuidores de melhores condições de adaptação (personalidade), não manifestam transtornos emocionais diante de iguais condições de vida. É por causa disso que "se envelhece como se viveu".
De entre as funções psíquicas alteradas com e pelo envelhecimento, a afectividade merece destaque. Ou seja, a capacidade de experimentar sentimentos e emoções, no relacionamento do indivíduo com o mundo e consigo próprio. Nos transtornos degenerativos a afectividade costuma ser uma das mais precoces manifestações e geralmente traduz-se por um de 3 aspectos: exagero dos traços afectivos pre-existentes, primitivização da personalidade, ou esvaziamento de afecto.
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Será tanto mais evidente quanto mais problemática tenha sido a Personalidade Pré-Mórbida.
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Sabe-se também, que além dos componentes da personalidade existem aspectos familiares e genéticos, ou "características familiares", atrelados às doenças degenerativas da senilidade.
Outra das alterações afectivas do envelhecimento é a Incontinência Emocional. Trata-se de uma forma de alteração da afectividade peculiar à velhice que se caracteriza pela grande facilidade de produzir intensas reacções afectivas e uma subsequente incapacidade de as controlar.
Outra alteração, que tem a ver com o relacionamento com sua história, é atribuir novos significados a factos antigos, colorindo-os com mais matizes: alegres ou tristes, culposos ou mentirosos, frustrantes ou gratificantes, satisfatórios ou sofríveis.
Por outro lado, características da personalidade anterior tornar-se-ão mais exuberantes com o envelhecimento e, se o indivíduo viveu desadaptadamente durante a idade adulta, certamente envelhecerá mais desadaptadamente ainda. Assim, pulsões e paixões reprimidas ao longo da vida encontrarão na velhice o terreno ideal para o desenrolar de um triste e amargo culto ao passado, frustrações, pecados, angústias e rancores, um "espectáculo" quantas vezes penoso para toda a família. São os idosos que começam a tornar-se mais agressivos, mais ciumentos, mais desconfiados, mais fantasiosos, mais libidinosos, mais teimosos, mais implicantes e por aí fora.
Labilidade Afectiva, é também uma das transformações que nos habituamos a observar nos mais velhos, caracterizada por mudanças rápidas nas emoções. Pode haver, por exemplo, explosões do humor, manifestações de cólera, irritação ou choro fácil diante dos estímulos mais insignificantes.
Tais alterações podem ser consequentes não apenas ao psicodinamismo alterado dos idosos mas, também, às alterações degenerativas do SNC, seja do ponto de vista tecidual, seja circulatório.
Em média, o cérebro perde 5 a 10% do seu peso entre os vinte e os noventa anos. Este "encolhimento", ou atrofia, é particularmente agudo no hipocampo e nos lobos frontais. Estas alterações na estrutura e na função levam a alguma perda na função cognitiva. Por exemplo, a nossa memória episódica, que nos permite lembrar onde deixámos as chaves, por exemplo, vai piorando com o tempo. Contudo, isso não significa que haja algum problema: é uma consequência normal do envelhecimento. Executar várias tarefas ao mesmo tempo, como ouvir rádio, ler o jornal e conversar com outra pessoa, que facilmente poderá ser feito em simultâneo pelos jovens, constitui cada vez mais um desafio à medida que envelhecemos. Este declínio, contudo, pode não ser apenas devido a problemas de memória. A deterioração da visão e da audição, por exemplo, desgasta a capacidade dos idosos pensarem claramente. As pessoas mais velhas também têm tendência para demorar mais tempo a tomar decisões e a tirar conclusões. Por exemplo, os jovens, e mesmo as crianças, pensam mais depressa em situações novas.
Atenção que, apesar do exposto, cerca de 75% dos idosos retêm faculdades intelectuais normais enquanto envelhecem, ou seja, terão aquilo que consideramos função mental normal para a idade, enquanto outros desenvolverão deficiências intelectuais ligeiras (como dificuldade em lembrar acontecimentos recentes) e outros ainda, desenvolverão formas mais graves de declínio, como a demência. O que são coisas diferentes.

22 comentários:

Repórter disse...

É óbvio que concordo com o que leio.
Mas, na minha opinião, o pior envelhecimento é mental.

Gotcha?

Beijo

Alien8 disse...

Boa abordagem de um tema muito importante. Escolheste os "aspectos relacionados com o próprio indivíduo" e explicaste-os de forma clara, mas sem perderes de vista o teor científico indispensável. Se me permites uma sugestão, que tal um post com conselhos (neste já de algum modo aflorados) sobre práticas e formas de envelhecer melhor (ou menos mal)? Se estiveres com disponibilidade para isso, e vires alguma utilidade no tópico, está bem de ver.

hfm disse...

Como gostei de ler este texto!

Cristina disse...

reporter

é mesmo desse que se trata aqui...

Cristina disse...

hfm

obrigada, fico satisfeita:)

um abraço

Cristina disse...

alien

se tu achas interessante eu faço, nem que seja só para nós dois... ;)

beijos

Alien8 disse...

Cristina,

Com essa é que me tramaste :)

Mas não será só para nós dois, acredita. E se fosse, não se perdia nada, digo eu...;)

Beijos.

Rosalina disse...

Excelente!

Cristina disse...

rosalina

olá amiga! sabes, às vezes desesperamo-nos com os idosos, ou imaginamos que eles poderiam ser diferentes, ou tentamos arranjar justificações para fenomenos que correspondem à evolução natural das coisas.

um beijo

Sapka disse...

O medo de envelhecer ou ser velho é terrível, angustiante, paralisante. A única solução para muitos problemas psicológicos da velhice consiste precisamente em não ter esse medo. Ora no presente texto tudo parece impecavelmente compendiado, inventariado, analisado, logo inevitável, irremediável. É, nesse sentido, um texto deprimente para quem se aproxima da velhice, como se tudo estivesse predeterminado. Mas, olhando melhor, todas as faixas etárias incluem estes perigos, estas tendências, estas mazelas do espírito e da afectividade. O problema, logo, não está na idade, mas na atitude perante o desafio e o dom irrenunciável da vida.

Gi disse...

5***** este teu artigo Cris. Ajuda a entender os outros e quem sabe prepararmo-nos para um futuro próximo ... (esperoq ue não seja tão próximo assim :) )

Beijinho

Cristina disse...

sapka

não vejas como deprimente, ajuda talvez a entender alterações de comportamento que talvez ja tenhas observado e ajuda principalmente, quando la chegares, a lidar com mais tranquilidade com alguns deficits. até porque, a grande maioria das pessoas não está demente, portanto tem noção deles. é bom que tenha a ideia de que a labilidade emocional que sente que tem, ou os esquecimentos, são normais e têm que ser levados com alguma ligeireza.
sem stress ou depressão, que é uma consequencia possivel.

Manel disse...

É uma sorte ter nascido, estar vivo e chagar a velho será uma benção.

Eu, por exemplo, já uso óculos devido ao ADN (Afastamento da Data de Nascimento).
Com um pouco de sorte chegaremos os dois a velhos, praticamente quando um ao outro.
A sorte é ir escapando.
Beijinho
manel

dalloway disse...

Um lembrete desta qualidade é sempre bem vindo.
Estava a precisar de ler isto!
Obrigada

DUCA disse...

Cristina

Gostei do muito do texto e destaco esta frase:

É por causa disso que "se envelhece como se viveu".

E respondo da mesma forma que fiz no Tempus ao teu comentário a propósito do post sobre a Rita Levi Montalcini:

E ele (o teu doente de 70 anos que escrevia) tinha razão. Na sociedade ocidental, somos educados com um medo enorme de envelhecer, quando este processo é o mais natural a partir do momento em que somos concebidos.
Deveriamos deixar de ser tão obcecados pelo envelhecimento do corpo e estarmos muito mais focalizados no rejuvenescimento da mente. Se calhar, existiriam em menor percentagem certas doenças que, na verdade, em sociedades menos focalizadas no medo de envelhecer, acontecem em menor percentagem que naquelas onde parece vivermos contra o tempo.


Beijo

Cristina disse...

manual

é melhor arranjar uma boa capa, que quem tem capa sempre escapa :)))

beijinhos

Cristina disse...

gi

obrigada, não estava ainda a pensar em nós, mas realmente...talvez não seja má ideia lol

um beijo

Cristina disse...

dalloway

o Alien exige medidas. concorda? :))

Cristina disse...

Duca

é bem verdade que o estado da alma é um componente fundamental do "estado de saúde". e é um factor de bom prognóstico.

também é verdade que quem tem mais actividade intelectual, quem "esticar" mais os neurónios, mais possibilidades temn de que estes funcionem bem.

mas, também é verdade que certas alterações são quase inevitáveis mais cedo ou mais tarde. é preciso saber lidar com elas e não se desesperar.

um beijo

dalloway disse...

O pedido do Alien tem toda a razão de ser até porque ao vivermos tão acelerados perdemos por vezes a capacidade de pensar com carinho e prestar atenção às pequenas grandes mudanças afectivas e cognitivas daqueles que nos rodeiam e que estão no processo de envelhecimento.

Este seu post fez-me pensar especialmente na minha mãe que tem 72 anos. Sempre foi (e é) uma mulher muito activa intelectualmente e está bem de saúde, mas sinto a diferença.
Continuo a pensar que o tempo é fodido e que é difícil por vezes aceitar determinadas mudanças.
Tudo leva o seu tempo.

dalloway disse...

A frase de Cortazar é sublime!

Só mesmo a Cristina para se lembrar desta frase.

Rosalina disse...

É verdade Cristina. Pelo facto de acompanhar de perto o acompanhamento que a minha mãe (apoiada pelo papá) faz dos pais, gostei tanto do texto.

Um equilíbrio perfeito entre o que é o envelhecimento e a forma como nós o deveremos encarar.

Mas é tão difícil depois, na prática, manter esse equilíbrio. E não há fórmulas. Mas garanto que tudo o que escreveres aqui sobre esta temática será devorado por mim. Saber, conhecer só pode ajudar. ;)