26 janeiro 2008



Lembrando pela crónica de MST no Expresso um dos lugares mas fascinantes que tive oportunidade de visitar mais de uma vez e do qual nunca me canso, como de tantos outros em Espanha: O Alhambra em Granada, a cidade murada no topo da montanha e último enclave dos mouros antes do ponto final em oito séculos de domínio muçulmano. O local é paradisíaco e com localização privilegiada abaixo dos Picos da Serra Nevada com larga vista sobre Granada..
Dizia Alexandre Dumas, «Deus criou o Alhambra e Granada, para quando se cansasse da sua morada celestial».
Com estas palavras resume a beleza e o esplendor, próprios dos contos das mil e uma noites, ou dos contos de fadas, que é o palácio dos Nasrida-Senhores do reino de Al-Andaluz-, o conjunto palatino fortificado mais famoso da Europa, no período final do poder islâmico peninsular (séculos XIV e XV). Os mouros chamavam-lhe “ Kalat Al-Hamra”, o castelo vermelho.
Hoje, reconstruído após séculos de abandono, é um local de sonho sem grande ostentação externa, que dispensa, tal é a beleza e a riqueza do interior com os seus magníficos jardins árabes, com os seus parques e suas fontes frescas e murmurantes. A revisitar. Sempre.

mas a crónica....

Nos jardins árabes do Palácio dos Reis Cristãos, em Córdoba, a água corre sem cessar, passando sucessivamente em cinco tanques de pedra, dispostos por patamares, e depois rega o ‘horto’ onde as roseiras hão-de florir na Primavera e as buganvílias de todas as cores hão-de cobrir os muros das escadarias. Ao lado das piscinas, duas alamedas de laranjeiras carregadas de frutos desenham o jogo de sombras e luz que é, a par da presença constante da água, o sinal distintivo dos jardins árabes. Ao fundo, e mais recuados, erguem-se os ciprestes majestosos por onde a luz penetra nas noites de luar e algumas palmeiras ondulam na suave brisa da manhã. O lugar é simplesmente mágico: não há nada a mais nem nada a menos, como se ali (ou nos jardins do Alhambra, em Granada) a perfeição estivesse para sempre reunida e toda a inquietação humana pudesse finalmente descansar para sempre. E não é por acaso: o Corão diz que o Paraíso é um jardim atravessado por um rio, e os arquitectos que desenharam os jardins do Al-Andaluz, como os que desenharam os jardins para o sultão de Marraquexe, quiseram dar aos seus senhores uma visão terrena do Paraíso que melhor os pudesse inspirar a serem justos e sábios na sua governação.
Ali próximo, naquela que outrora foi a mais esplendorosa mesquita de todo o mundo árabe, podemos testemunhar os efeitos culturais devastadores que a Reconquista cristã causou em toda a Península. Transformada pelos cristãos em mesquita-catedral, a fantástica beleza despojada da construção original, com as suas 988 colunas de mármore suportando as cúpulas de azulejos trabalhados em motivos geométricos, foi para sempre pervertida por essa ostentação oca das catedrais, com a sua profusão de altares, ouros, capelas laterais e estátuas de santos por todos os lados. E, pela enésima vez, penso nesse insondável mistério da história: porque é que uma derrota militar, e mesmo a retirada para o lado de lá do estreito, foi capaz de significar a morte de uma civilização tão brilhante quanto a civilização árabe da Península? Para onde foram os geógrafos, os cartógrafos, os físicos, os astrónomos, os matemáticos, os arquitectos, os construtores de jardins que fizeram o apogeu do Al-Andaluz? Que imensa nostalgia ou letargia pode justificar um tão grande sono de mais de quinhentos anos, durante os quais podemos contar pelos dedos de uma mão os árabes que deram um contributo notável ao avanço da ciência, da arte, da civilização humana?
(...)
A verdade é que, no mesmo ano da conquista de Granada, os Reis Católicos lançaram-se na aventura das Índias e, meia dúzia de anos depois, os portugueses lançaram-se à descoberta do Brasil e da rota marítima para a Índia. E esse foi apenas o começo de uma civilização que, desde então, não parou de avançar e de descobrir coisas novas, desde vacinas e tratamentos de doenças até à lua e ao espaço, da construção de cidades e países inventados no outro extremo do mundo até aos computadores e às telecomunicações instantâneas. E o que fez o mundo árabe durante todos esses séculos? Descobriu que tinha petróleo...(...)
Podemos, se isso ainda fizer algum sentido para eles, pedir desculpa pelas Cruzadas - que foi um momento de barbárie e estupidez, como são sempre todos os actos ditados pelo extremismo religioso. Podemos pedir desculpa pela Palestina, pelos campos de refugiados de Gaza, por essa absurda invenção política que foi a criação do Estado de Israel nos territórios há séculos habitados pelos palestinianos. Podemos e devemos pedir desculpa por coisas tão idiotas e injustificadas como a invasão e a ocupação do Iraque, decidida por meia dúzia de políticos mentirosos e ignorantes. Podemos pedir desculpa por este capitalismo globalizado que transforma uma crise financeira causada pela ganância de alguns banqueiros americanos numa crise económica mundial que vai sobretudo atingir povos que tentam sair do subdesenvolvimento à custa de imenso trabalho e sacrifícios. Mas teremos de pedir desculpa também pela queda de Granada em 1492? Teremos de pedir desculpa por termos feito a Revolução Francesa e a Declaração Universal dos Direitos do Homem? Por termos separado o Estado e a Igreja, por há muito termos abandonado o espírito das Cruzadas e da luta contra o ‘infiel’, por tratarmos as nossas mulheres em igualdade com os homens, ou por termos padrões de comportamento sociais e culturais que são diferentes mas que respeitam também a diferença do outro? Teremos de regredir à Idade Média para que os guardiões do Islão deixem de nos querer ver mortos e aniquilados?
Nos jardins árabes de Córdoba, nos pátios e muros do Alhambra, há uma promessa de eternidade que não foi cumprida pelos descendentes dos seus construtores. Onde estão hoje os jardins suspensos da Babilónia? Onde está a harmonia, o equilíbrio, a homenagem à vida que o Islão espalhou por toda a Andaluzia? Como é que deixaram que o Corão se transformasse num código penal irracional e num catálogo para terroristas? “Tu não verás nenhuma imperfeição na obra do Senhor” - qual é a obra do Senhor no 11 de Setembro, em Manhattan, ou no 11 de Fevereiro, em Madrid, na estação de Atocha?

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Estranhos e dificilmente compreensíveis, os caminhos da fé. De facto.

5 comentários:

dalloway disse...

Alhambra...uma beleza poética.
Não é que o seu conselho final deixou-me a pensar....ai a minha vida :)
"Revisitar. Sempre."

Quanto à crónica do MST vou ter que ler no jornal porque a letra que a Cristina escolheu dificulta-me a leitura o que me obriga a um esforço tremendo. Não se incomode com esta observação até porque a pitosga a aqui sou eu e como estive a trabalhar de forma errada e exaustiva, atão...Mas nada como olhar para as fotos para ficar logo melhor :)

*há muito que eu não ouvia Nick Drake (e porque se fala dele, espero que por ai a melancolia não seja demasiado 'pesarosa').

Cristina disse...

dalloway

o Alhambra tem um significado muito especial para mim. vou muitas vezezs a Espanha, que conheço relativamente bem e tive até há pouco tempo casa na Galiza. mas, a parte de que mais gosto é indiscutivelmente a Andaluzia. A atmosfera tem um aroma especial. adoro tudo: as casas, os pátios,as janelas, as pessoas, a musica, o flamenco, o "salero" dos andaluzes, os touros, comida, o calor, tudo.

e a magia da influencia árabe.

bjinhos. vinda de um jantar de amigos com um serão de snooker :))

Luis disse...

Voce registrou estas fotos? São suas?

São lindas. Pela televisão lembro de ter visto imagens maravilhosas de Portugal e principalmente Espanha, prédios antigos e catedrais belíssimas.

Preciso muito conhecer.

Abraços de além mar,

Luis

Cristina disse...

luis

não, não são minhas! nenhuma foto daqui é minha a não ser as que eu indico.

minhas são as do contra capa fotoblog. :)

Luis se não conhece Espanha, precisa conhecer. é um país alegre e com coisas lindissimas a nivel arquitónico e histórico. a variação de paisagem e oferta de norte a sul são assombrosas

um abraço

Leonor disse...

o texto do MST está muito bem escrito, de facto.

e o pior é que não se vê (ou eu não vejo) como ultrapassar a questão