08 janeiro 2008


Acredito que, como eu, muitos de vós estarão pouco familiarizados com os possíveis futuros candidatos americanos às eleições. Por isso, não resisto a deixar aqui uma expressiva caracterização feita por Idelber Avelar, professor de Literatura Latino-Americana da Universidade de Tulane, New Orleans e autor do excelente Blog "O Biscoito Fino e a Massa":
Eleições americanas: um ABC
Está precisando de informação sobre as eleições americanas? (...)O Biscoito oferece o ABC das eleições americanas em pílulas rápidas e indolores. É só imaginar que se trata de uma eleição para o grêmio estudantil (associação de estudantes). Vamos lá.
Hillary Clinton:
É a sabichona que se senta na primeira fila e só tira nota 10. Conhece melhor que qualquer um o funcionamento da escola. É a que mais terá elementos para negociar com a diretora, os professores e os funcionários. Mas por ser mulher e sabida, despertou a ira dos brutamontes da última fila. Tendo que demonstrar que é durona, foi aos poucos adotando as suas táticas. Resultado: metade quer esmagá-la por ser petulante, enquanto a outra metade suspeita que ela se transformou num dos brutamontes que a atormentavam. Perdeu a base que tinha e não foi aceita entre os verdugos.
Mitt Romney:
É o candidato da diretora. Com mais grana que todos os outros, é filho do prefeito, a quem a diretora deve favores. Tem toda a máquina a seu favor, mas precisamente por isso não consegue deslanchar, pois o grêmio não vai muito bem das pernas. Veste-se melhor que os demais, mas numa escola onde tantos andam com roupas rasgadas, isso começa a contar contra ele. Tem modos. Esbanja tanta elegância, contatos e dinheiro que sua substância – se é que a possui – já ficou perdida no meio dos assessórios.
Rudy Giuliani:
É o zero à esquerda que um dia teve a fortuna de estar passeando à beira do lago enquanto uma garota se afogava. Teve a sorte de salvá-la, o que lhe rendeu fama. Deu o azar de que a eleição para o grêmio aconteceu anos depois do quase afogamento da garota. Se ela tivesse ocorrido logo depois, teria sido barbada. Como passou o seu momento, só consegue ficar repetindo: eu salvei a garota, eu salvei a garota.

John Edwards:
É o bonitinho da sala, que conta, além do mais, com a fama de proteger os mais fracos contra os brutamontes que lhes roubam o lanche. Vive dessa fama. Seu problema é que os pirralhos vão crescendo e perdendo a memória da época em que apanhavam dos grandes. Se os sacos-de-pancadas compusessem 50% do alunado em condições de votar, sua eleição seria barbada. Mas entre os verdugos e as vítimas há uma vasta camada média com a qual ele tem dificuldade de se comunicar. Vive nesse dilema.

Mike Huckabee:
É o pobretão que entrou com bolsa. Com jaqueta maior que seu talhe – provavelmente herdada do irmão --, ele inicialmente espanta os outros pela rudeza. Não sabe usar talheres, diz nóis foi ao invés de nós fomos e começa a cativar exatamente por isso. É daquele grupo de alunos comuns aos quais os candidatos a presidente do grêmio sempre apelam na hora do voto, e dos quais depois se esquecem. Desta vez, um deles resolveu pleitear candidatura, e justo na cabeça-de-chapa apoiada pela diretora que, obviamente, está em pânico.

Dennis Kucinich:
É aquele que diz o que a maioria dos alunos quer ouvir – quando lhe permitem falar, claro. Nada de negociações escusas com a diretora, nada de tramóias com funcionários para prejudicar outros alunos, nada de puxa-saquismo aos professores. Parece bom demais para ser verdade, o que acaba sendo profecia auto-realizada. Uma parte dos alunos pensa que a maioria jamais votaria em alguém tão bom, e a outra parte pensa que mesmo se votassem, a diretora não permitiria sua posse. Vive nessa tragédia. ~
John McCain:
É da turma da diretora, mas também com trânsito entre os alunos. Tem fama de razoável e ponderado. Aliás, é o único que circula em todos os bandos: entre os puxa-saco da diretora, os marginais, os CDF's, os desportistas e até os maconheiros. Todos o respeitam e lhe têm algum afeto, mas ninguém confia 100% nele. É oficialista demais para os da última fila, puxa-saco demais para os desportistas, certinho demais para os maconheiros e doidão demais para os CDFs. É mais ou menos como o América-RJ ou a Portuguesa-SP: o segundo time de todo mundo. No Rio Grande do Sul, por exemplo, não teria nenhuma chance. Mas como a chapa da diretora anda muito fraturada, pode acabar levando.
Barack Obama?
Esse é o aluno que vem de fora, com outra experiência. Alto, bonito, excelente orador, cativa as mulheres sem provocar ressentimento nos homens. Parece falar uma língua diferente. Ao ouvi-lo, os alunos começam a acreditar que as fraturas do grêmio serão, quem sabe, superadas. Tem o dom de fazer que as soluções pareçam mais fáceis do que pareciam antes. Até a diretora parece fascinada com ele. Parece ter algo em comum com todos: o conhecimento de Clinton, a autenticidade de Huckabee, a ponderação de McCain, a elegância de Romney, o quase heroísmo de Giuliani, os ideais louváveis de Edwards e Kucinich. Ou talvez não tenha nada disso. Se ganhar, pode provocar uma das transformações mais radicais da história do grêmio. Mas pode também causar um fracasso estrepitoso, levando a parca metade dos alunos que ainda participa do processo a terminar concordando com a outra metade na convicção de que votar nas eleições desse grêmio é, no fundo, uma grande bobagem.
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para quem tem dificuldade com linguas estrangeiras, o Idelber traduziu alguns termos:
"deslanchar" é tomar fôlego, ganhar alento.
"grêmio estudantil" é a entidade que representa os estudantes (associação de estudantes)
"CDF" é uma gíria brasileira. Significa "cu de ferro". São os alunos que só estudam, levam tudo a sério.
"chapa" é a coalizão eleitoral.
"barbada" significa "fácil", um jogo já ganho de antemão.

11 comentários:

Francis disse...

parece que a mulher do bill lá se safou...

Álex disse...

bem trocado "para miúdos" ; agora só falta a pachorra para a explicação de como funciona o diabólico sistema eleitoral americano ; )

Luís Bugalhão disse...

bom, cá para mim a única coisa com interesse foi conhecer a palavra 'coalizão'. de resto, qu'é q's'há-de dizer, são as eleições menos participadas do mundo (enfim) democrático.

cm diriam os gatos, 'tá bem tá!'

bjs

Cristina disse...

francis

pois é, a Billa lá se safou. que pena :/

Cristina disse...

alex

tens aí algums blogs e sites que o explicaram bastante bem :)

se eu encontrar mostro.

Cristina disse...

luis

para mim tudo tem interesse quando vindo de quem está por dentro :)

Francis disse...

ó miss tina,

o quié qui ocê num gosta na hila ?

Cristina disse...

francis

num gosto daquilo queu gosto no Obama: a voz e o sonho. ;)

Francis disse...

sonho na politica dá mau resultado, minina.
mas ok, eu confesso que não tenho ligado nenhuma a estas eleições e vou começar a gora a informar-me como deve ser.
mas nunca esquecendo que quem manda nos gajos, são os lobbys no congresso e as grandes empresas que lhes enchem os bolsos.

Idelber disse...

Cara Cristina, muito obrigado pelo link e por recomendar o Biscoito. Foi um prazer conhecê-la (virtualmente) e também visitar o belo trabalho de esclarecimento médico que você faz em seu outro blog.

Que curioso que a palavra "coalizão" não exista em Portugal! Sabendo que se tratava de raiz latina, fui pesquisar. Com efeito, vem do verbo latino coalescere (aglutinar, juntar), mas o substantivo não existia em latim; apareceu em francês (coalition). Ou seja, é um galicismo que chegou ao Brasil sem passar por Portugal.

Um beijo e de novo obrigado,

Cristina disse...

Idelber

imagine, o prazer foi meu! é sempre um ganho conhecer pessoas inteligentes. já leio o Biscoito há muito mas ainda nunca tinha ousado "falar" contigo :)

quanto à palavra, não usamos, de facto. assim como outras palavras ou construções que parecem vir dos primórdios da lingua lol é engraçado sentir isso ao mesmo tempo que acho que o "brasileiro" é muito mais expressivo, não mais rico, mas muito mais expressivo.

um beijo, encantada com a tua visita:)