01 dezembro 2007

de que lado está a responsabilidade?


Fala-se hoje mais uma vez de luta contra a Sida, doença mata quatro pessoas em cada minuto, ou mais de 5.700 por dia, segundo a ONUsida. Publicadas em Novembro, as últimas estimativas daquela agência das Nações Unidas assinalam cerca de 6.800 novas contaminações por dia.
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Segundo o mais recente relatório anual do Programa das Nações Unidas sobre a doença, o número de casos notificados torna Portugal o quarto dos países da Europa Ocidental que mais casos novos de infecções por VIH diagnosticou em 2006. Entre as 32.205 pessoas com HIV registadas em Portugal, 43 por cento já apresentavam sida.
Só nos primeiros nove meses deste ano foram notificados cerca de 2000 novos casos de HIV/sida, o que equivale a 6,5 casos registados por dia. Entre seis e sete novos casos por dia num país com uma população equivalente a algumas cidades do Mundo.
Diz um médico Internista do H. Capuchos no artigo do PDiário, que «As campanhas são poucas, pouco apelativas e devia haver distinção entre campanhas para a população geral e para alvos específicos». E é por aí, exactamente, que queria ir.
Em Portugal, como na Europa em geral, o aumento das doenças infecciosas está intimamente ligado ao aumento da Sida e da Tuberculose, a segunda em consequência do aumento da primeira. Outro dado sobejamente conhecido, é que o aumento da Sida se tem feito à custa da transmissão heterossexual com incidência relevante nas mulheres. Retiremos neste momento da "confusão" a transmissão homossexual, uma vez que neste grupo, supostamente mais informado sobre a doença, ela está aparentemente controlada. Voltemos à transmissão hetero. E aqui, porque falham as campanhas? Primeiro, pela ausência. Depois, porque as únicas, insípidas e mal feitas campanhas existentes, são as dirigidas "à população geral". Ao cidadão que poderá vir a ser infectado caso não se proteja. Ao cidadão que na maioria das vezes nem sabe bem do que é que estão a falar, como comprova qualquer reportagem de rua. Elas são importantíssimas, ninguém o nega, e seria um extraordinário avanço se toda a gente conseguissem enfiar na cabeça pelo menos uma palavra: preservativo.
No entanto, este não é o único alvo e por uma razão simples: para haver transmissão tem de haver um infectante e um infectado. E, parece-me a mim, que o primeiro grupo tem sido sistematicamente esquecido.
Que campanhas têm sido feitas dirigidas ao infectante, ao seropositivo, no sentido da responsabilização em relação à saúde de quem o rodeia? Nenhumas.
Nenhuma chamada de atenção para comportamentos irresponsáveis, para o aumento da contaminação de pessoas inocentes, e refiro-me nomeadamente aos cônjuges e aos filhos mas poderia falar de toda a população não infectada, nada.
Nenhuma campanha de sensibilização, por exemplo, para que os infectados não abandonem as consultas. Para que sigam todas as indicações de profilaxia da tuberculose que, repito, aumentou dramaticamente entre a população saudável à custa da transmissão pelos doentes com Sida. Mais uma vez, nada.
Nenhuma campanha para quem tem comportamentos sexuais de risco fazer o despiste da doença para que possa iniciar tratamento em tempo útil, por si, e pelos outros. Nada.
Sejamos claros, qualquer infectado HIV tem consciência absoluta de que tem uma doença infecciosa e o que isso representa, logo seria mais facil entender uma campanha desse tipo, do que alguém que definitivamente ainda não lidou com ela, logo não só não sente o problema como seu, como tende a não lhe dar importância. Por exemplo: porque é que uma mulher que só tem relações com o marido há-de seguir as recomendações do "use preservativo se tem comportamento de risco"? Entende esta campanha como dirigida a si? claro que não. Neste caso, e noutros semelhantes, a responsabilidade está obviamente do outro lado.
Em suma, nenhuma campanha que "obrigue" os doentes com HIV a pensar não só em si, mas também nos outros.
Há uma espécie de desresponsabilização sistemática transferindo toda a culpa para a população em geral que tem obrigação de se proteger. Tem, mas tem também o direito de ver nas várias associações de protecção de doentes, uma atitude mais séria e mais responsável, que ajude a menorizar os números dramáticos da contaminação.
Fala-se, isso sim, muito, em discriminação, da estigmatização, de doentes HIV. Do seu "direito" a não revelar a sua condição, porque causa disso. Desculpa-se, defende-se até. Mas, não nos esqueçamos que esse direito que parece tão consensual, é o mesmo que infecta, e mata, milhares de pessoas. Que os leva a não revelar à mulher, ao marido, aos parceiros esporádicos, a deixar vir ao mundo crianças infectadas condenada a morrer, e por aí fora.
Para haver transmissão, há-de haver um infectante e um infectado.
Ambos devem ser responsáveis.

6 comentários:

e-ko disse...

amiga Cristina,

estou tão farta deste país... desta falta de responsabilidade a todos os níveis... há tanto para se fazer mas ninguém faz nada nem dá meios ou condições para outros fazerem. quando voltei, indignava-me por tudo e mais alguma coisa e fui mal vista... criticada, porque estrangeirada, só tenho medo de caír na apatia e já não estou muito longe disso. até a blogosfera é uma forma de pregar aos peixes. quanto mais vivo e lido com humanos, mais gosto de peixes e de outros bichinhos e em particular do meu cãozinho...

desejo-te uma boa tarde de domingo e deixo-te uma beijoca

cs disse...

leia este post do João Gaspar
http://issodepende.blogspot.com/2007/12/sida-fodida.html

bom domingo

Cristina disse...

e-ko

querida, ja tinha visto a tua resposta, mas só agora vim escrever, sorry. e isto para te dizer que estamos longe, muito longe, do pais que todos queriamos. mas, apesar disso, não consigo ser, não sou, habitualmente tão pessimista. e isto porque nunca consigo distanciar-me do facto de haver milhões e milhões de pessoas que dariam tudo para aqui viver. não temos o pais ideal, e-ko, mas temos um pais onde, apesar de tudo, temos o minimo para poder viver com dignidade e com tranquilidade. nomeadamente ao nivel da saude, lembre-se só disto: há muito poucos paises no mundo onde qualquer indigente que nunca fez um desconto, tem direito a uma unidade de cuidados intensivos que custa milhares de euros por dia. isto é muito importante e representa muito mais do que só o facto em si.

um beijo

Cristina disse...

cs

obrigada, ja li.

beijos

DUCA disse...

Aqui há um tempo li num blog uma chamada de atenção para o grupo considerado de menor risco de infecção do HIV; as lésbicas. Nesse blog, a autora dizia que nunca relação sexual ocasional com outra mulher, a lésbica não pode ter a certeza se a outra é bissexual ou, caso seja lésbica, se antes não terá estado com uma bissexual ou heterossexual infectadas, acabando por concluir que numa relação sexual fortuita, a lésbica deve proteger-se e explicava com imagens como cortar um preservativo e o colocar na genitália da outra para poder fazer sexo oral em segurança.
Enquanto a maioria das lésbicas mostravam o seu interesse em saber mais, alguns heterossexuais, sobretudo do género masculino, desataram num gozo incrível fazendo chacota das imagens, etc.
O blog é português e os comentadores também o eram.
Por aqui se vê a ignorância e irresponsabilidade de muitos portugueses na forma como lidam com o HIV.
Infelizmente, ainda há muita gente convencida que o HIV é coisa de "paneleiros".

Cristina disse...

penso que já nem tanto...

sabes, a questão da não transmissão não parte do principio de que todas são seronegativas. de facto, imagina uma lesbica infectada num grupo de mulheres saudaveis. imagina um homem infectado num grupo de mulheres saudaveis.

se cada um deles tiver relações com todas as do seu grupo, ele infectou mais que ela. ela, pode nem ter infectado ninguem...
é por isso que a transmissão não "alastra" entre as lesbicas, a relação não é propicia a isso.

sinceramente, não sei se se justificam esses preservativos. mas também não conheço trabalhos feitos entre grupos lesbicos.

beijos