16 dezembro 2007

novos escritores: a arte, o sucesso e a vaidade.


No Leituras cotidianas – Vol. 2, um texto de Chico Lopes, Escritor, autor de “Nó de sombras” (IMS/SP, 2000) e “Dobras da noite” (IMS/SP, 2004) – contos.


A arte literária, onde fica?
É tristemente irónico que, conversando por vezes com escritores de alguma fama nacional, a gente se espante com um samba-de-uma-nota-só: a falta de sucesso. Os livros são lançados com esperanças e muito trabalho, muito sacrifício, mas não passam daquele "sucesso de estima" de uma noite de autógrafos com poucos amigos e admiradores, algumas vendas esparsas, mais nada. Em geral, o destino da maior parte desses livros é o encalhe doméstico; a uma certa altura, o que o escritor faz é distribuir o que restou lá por cortesia, para diminuir a pilha.
Alguns desses escritores simplesmente não percebem que o que desejam é uma impossibilidade, pura e simplesmente: querem ser uma mistura de Kafka com Ana Maria Braga. Querem escrever livros artísticos, "literários", sem concessões, e querem um grande sucesso de vendas, que os leve – para onde? claro: para a tevê, para algum entrevistador pedestre lhes fazer perguntas e destacá-los como personalidades. Aí, não falarão de Kafka, claro, mas de quem sai e de quem entra daquela famosa casa repleta de cretinos lobotomizados. A pressão da ideia de fazer sucesso é tão violenta que não percebem o contra-senso óbvio: escrever bem não é escrever para ser bem-sucedido socialmente. Pode ser exactamente o contrário.
Os escritores que realmente valem alguma coisa estão sempre na galeria dos inconformados, dos “outsiders”, dos que incomodam deliberadamente os padrões sociais. Têm o dever de erguer uma voz lúcida contra sandices e venenos vigentes na sociedade. É curioso perceber que essa ideia não é lá muito respeitada – há um desejo desesperado de conformismo, de sucesso a qualquer custo.
A arte literária, ela mesma, onde fica? Pouco se fala disso – fala-se de livros vendidos ou não vendidos, de colegas que venderam mais (donde as eternas ciumeiras e briguinhas estúpidas). Quer dizer: reproduz-se, na tribo literária, a corrida darwiniana de ratos que vige no meio social – importa quem vai chegar primeiro, quem vai vender mais, como, quando moleques, naquelas rodinhas em que já aprendíamos a ser uns machões predadores, apostava-se quem urinava mais longe e quem era dono de uns centímetros a mais.
A vaidade é, na verdade, o pior inimigo dos escritores. E é um inimigo insidioso, porque é pouco reconhecido como inimigo, e, portanto, repelido. Não se repele uma coisa que aparentemente nos afaga tanto. O sujeito de pouco carácter e pouco talento em geral é desfibrado em sua convicção (se tem alguma) quando elogiado – os elogios criam os circuitos de compadrio e complacência que são os responsáveis por tanto escritor ruim passando por sumidade. Na procura de holofotes, o candidato a famoso se esquece que a arte é feita lá atrás, no silêncio, na obscuridade, no trabalho sem “personalismos”. A grande arte sempre procurou o transpessoal, não a exaltação narcisista de seu fazedor. Bom exemplo disso? O próprio Kafka, que tinha em baixa conta seus próprios escritos e teria preferido ser homem feliz a escritor de glória póstuma, certamente, mas nada podia fazer contra uma genialidade que, nele, era maior que qualquer outra consideração. A arte, em geral, é tirana assim – pouco importa que o artista durma em alcova de luxo ou catre espartano, pois ele nunca passa de um instrumento privilegiado (e maldito) dela. Considerações com o sucesso e lucro são partes do homem comum, não do artista que se abriga sob a casca deste.
Nada valemos como pessoas, com nossas predileções bobinhas, nossos signos astrológicos e essas futilidades pelas quais as televisões se interessam. Valemos como artistas, “cavalos” de uma ideia superior, ou nada valemos, e não adianta pensar o contrário. A arte só lucra com o desinteresse, seu ritmo é outro, seu tempo é o da eternidade, não o da circunstância, do momento, que é o território da midia.
O único fracasso que deve nos perturbar é o de escrever mal. O resto é estupidez ou aquilo contra que o Eclesiastes nos advertiu – “vaidade vã”, de que os incautos se lambuzam, como se fosse um doce para lá de delicioso e não o veneno irremediável que é.

4 comentários:

PiresF disse...

Uma excelente visão do que rodeia e entronca na arte.
Bem postado.

Abraço.

Cristina disse...

também gostei deste texto

Abraço grande pra ti também :)

Alien8 disse...

E eu :)

dalloway disse...

Visão acutilante e abrangente de um assunto que tem tanto de subjectivo como de intrincado.
A-DO-REI o texto.