16 dezembro 2007

alcoolismo, a volta que há a dar.

a pedido de uma amiga/leitora, algumas notas sobre como lidar com o alcoolismo.

A primeira grande nota e a mais importante é que o Alcoolismo Crónico ou Síndroma de Dependência Alcoólica é uma doença crónica e incurável tal como todas as dependências. O que quero dizer com isto é que, apesar da pessoa conseguir controlar o seu vício, podendo até nunca mais lhe tocar, a possibilidade de recaída está sempre presente, logo, um dos piores erros que o alcoólico pode cometer é considerar-se "curado". Um "ex"-dependente, dificilmente conseguirá lidar com o álcool, ou tabaco, ou outras drogas, de forma normal ou saudável sem tender a cair de novo no excesso e na dependência. Posto isto, penso que é este o conceito que mais pode ajudar alguém que se encontra em fase de não consumo: um dependente é-o para toda a vida e é assim que deve lidar com isso.
Em relação especificamente ao alcoolismo, esta tem a desvantagem de ser uma dependência de forte aceitação social e que muitas vezes não é percebida pelos próprios nem pelos que o rodeiam. Quando confrontados, geralmente decorre um tempo razoável de negação da sua condição de dependente do álcool -"quando eu quiser, eu paro"- o que é um mecanismo de defesa natural para a preservação da auto-estima e afastamento do estigma social. Além disso, os limites entre o uso "social" e a dependência nem sempre são claros. Esta, diz-se que existe, quando a pessoa sente necessidade de beber de forma continuada (normalmente é um hábito diário sem chegar à embriaguez), e sente determinados sintomas quando deixa de o fazer. Esses sintomas, podem começar com ansiedade, nervosismo, um desejo forte de abandonar qualquer actividade em curso para beber e, se isso não acontecer, a passagem aos sintomas físicos de abstinência como a irritabilidade (a pessoa não relaxa enquanto não for "beber um copo"), o tremor das mãos, náuseas, suores, ansiedade extrema, além da sintomatologia psicótica quando há paragem abrupta por qualquer motivo (outra doença, por exemplo) e que pode levar à morte.
O que fazer?
O tratamento do alcoolismo não deve ser confundido com o tratamento da abstinência alcoólica. Ouvimos frequentemente dizer que fulano "foi internado para desintoxicação". Isto quer apenas dizer que se tratou a fase inicial e física da dependência, a que dá sintomas físicos, que é de longe o mais fácil e se consegue em meia dúzia de dias.. O mais dramático é tratar a dependência psicológica, exactamente como em qualquer outro vicio. E é bom saber que, aproximadamente 90% dos alcoólicos voltam a beber nos 4 anos seguintes à interrupção, quando nenhum tratamento é feito.
Quanto ao tratamento da abstinência física, ele é feito com base em doses altas de sedativos/neurolépticos em qualquer clínica ou hospital.
Passada essa fase, tudo se torna mais difícil e tudo depende do querer do doente, ou seja, não adianta imaginar que se trata uma pessoa que não pretende tratar-se.
Então, assumida a intenção de se tratar, é aqui que se torna fundamental o controlo mais apertado em consulta de desabituação alcoólica. O tratamento tem várias vertentes. Deverá sempre incluir os aspectos biológicos e psicossociais, tendo em conta o universo familiar, laboral e comunitário.
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Em todo o doente alcoólico devem ser investigados outros transtornos mentais em relação aos quais o álcool possa surgir como uma tentativa de auto medicação, como por exemplo a depressão ou os distúrbios de ansiedade. São, habitualmente, situações temporárias de abuso, mas, podem evoluir para a dependência crónica. Existem certos tipos de alcoolismo que são indicados para formas individuais de psicoterapia, nomeadamente aquelas em que o alcoolismo é secundário.
Além do respectivo enquadramento sócio-familiar, esta fase pode ser, também, farmacologicamente apoiada por substâncias como o Dissulfiram- uma substância sem actividade psicotrópica que inibe uma das enzimas de metabolização do álcool, provocando acumulo desse metabólito no organismo e um forte mal estar mesmo para doses pequenas de álcool (dores de cabeça latejante, náuseas, vómitos, fraqueza, falta de ar, taquicardia, palpitações, confusão mental, hipotensão..). A suspensão do consumo de álcool, quando necessário, pode ainda ser ajudada por benzodiazepinas(sedativos) de acção prolongada ou outras drogas que o médico responsável entender necessárias em cada caso particular.
Estas medidas terapêuticas devem incorporar estratégias de recuperação, reabilitação e promoção da sua reintegração no meio familiar profissional e social, uma vez que o indivíduo para se recuperar, mais do que parar de beber tem de mudar de padrões comportamentais, aprendendo a viver de forma diferente com a realidade que o cerca, exigindo-se-lhes uma maior responsabilidade pelos seus actos. O excesso de tolerância para com a "doença", transforma normalmente estes doentes em pessoas com comportamento infantilizado, irresponsável, mas ao mesmo tempo manipulador e de certo modo ditatorial; ou seja, embora pareça duro, quem os rodeia não deve -é um erro frequente- permitir-se ser usado apenas como suporte da alguém supostamente frágil e dependente. A partir de determinada altura, é preciso obrigar a um comportamento de adulto e às consequências dos seus actos.
Os grupos de auto-ajuda, são dos formatos terapêuticos mais difundidos na reabilitação. O facto de no grupo se encontrarem pessoas que têm o mesmo problema (se bem que possam estar em fases diferentes) faz com que não se sintam sozinhos ou únicos no seu sofrimento e sentimentos. Este laço que os une cria-lhes uma nova identidade, talvez mesmo o sentido de uma nova família e um sentido de solidariedade. Por outro lado, através dos indivíduos que se encontram abstinentes há mais tempo, é transmitida esperança, baseada em expectativas positivas formadas, de que o problema pode ser solucionado. Enquanto o alcoólico tratado se mantém activamente ligado ao grupo, possibilita a continuação do sucesso no seu tratamento.
Em suma, a estratégia exige um somatório de paciência e afecto usando da cautela necessária para não se deixar fazer parte do jogo manipulador tão próprio de qualquer dependente. O alcoólico é um doente mas não é deficiente nem incapaz. A família, amigos e colegas são importantes no acompanhamento, tanto evitando atitudes piedosas ou paternalismos inúteis, como modificando alguns comportamentos que tornem menos penosa a missão do doente de se abster de consumir, por exemplo, moderando(não exactamente evitar) o consumo de álcool na presença do doente. Ajudar sem confronto, mas com determinação. Principalmente, sem preconceitos ou atitudes depreciativas exageradas: um doente sem auto estima dificilmente resiste a algo indiscutivelmente mais poderoso.

6 comentários:

Leonor disse...

ouvindo-se tanto hoje em dia falar em prevenção da toxicodependência, havendo tanta divulgação sobre a mesma, com o que de resto estou, naturalmente de acordo, sempre me causou alguma perplexidade que um problema grave como o é o do alcoolismo no nosso país, que qualquer pessoa pode facilmente constatar nos empregos, na vida social, quando não mesmo na nossa vida familiar não pareça merecer por parte dar instituições idêntica preocupação.
Conheci inúmeros casos de alcoolismo no meu local de trabalho sem que houvesse uma política integrada por parte da medicina no trabalho de o combater, aliás a solução mais commumente adoptada era a não renovação dos contratos.
É uma ~questão complexa que pode minar por completo a vida de uma família e raramente vejo informação sobre ela nos jornais.
Obrigado pela informação e pelo tema que trás

HRP Mané do Brasil! disse...

Tudo verdade..crua e nua....longo e sofrido caminho de quem quer voltar a "viver",
Muito boa noite a todos!

Cristina disse...

leonor

no meu local de trabalho então...:)

realmente é uma causa de morbilidade e mortalidade, ainda, preocupantes. mas Leonor, o facto é que o alcoolismo só é mal visto quando alguém anda a cair de bêbado (e bate na mulher)...agora, eu ja vi mais que uma vez pessoas de aspecto irrepreensivel serem internados por qualquer outro motivo e no segunto dia estão em privação alcoolica. o curioso é que nem a pessoa tem noção de que é dependente. são aqueles que bebem todos os dias, toleram bem e fazem a sua vida. de facto, têm de beber para se sentir bem, sentem-se ansiosos se passarem umas horas sem beber, mas não fazem ideia de que são dependentes. depois, há-os que têm noção disso mas não admitem doença. gostam, necessitam de beber qualquer coisa, admitem o excesso, mas lá está: "páram quando quiserem".
depois, os que até ja têm a sua vida afectada, mas a familia encobre e os amigos desculpam. "bebe um bocado mas é bom rapaz", "anda a passar uma fase má" e por aí fora.

está a ver que sobram os que andam mesmo bebados todos os dias, que ja têm cirrose e por aí fora. mas esses, são a minoria.

é complicado, de facto, somos parernalistas e nestas coisas junta-se o nacional porreirismo com a conveniencia do coitadinho. má combinação :)

beijinho

Cristina disse...

oi hrp

realidade preocupante aqui e aí, não é? pelo que vou vendo...

e muito muito dificil de controlar. exige equipe multidisciplinar, apoio da familia e amigos mas ao mesmo tempo firmeza. raramente se consegue tudo isso.

beijinhos

Nick Knock disse...

O tabaco não é melhor do que o álcool, ouviram? E o fumador ainda obriga os outros a ter de suportar o seu fumo. Não durante muito mais, haja deus!

Charlie disse...

Vencer uma dependência? Haverá um clique num instante qualquer?
Que força existe dentro de nós maior que a escravidão química e que num momento ou circunstância especial nos fazem encetar um novo ciclo.
Este link remete para um conto, não autobiográfico mas real e, digo eu que deixei de fumar há 15 anos dum momento para o outro através dum clique, certamente não o único:

http://cartassemvalor.blogspot.com/2007/05/carta-dum-ex-alcolico.html