entregues os prémios, retomamos a programação habitual.

Hoje, li num blog brasileiro uma discussão interessante sobre a versão de Blower´s Daughter, de Ana carolina e Seu Jorge. Resolvi trazê-la por dois motivos: primeiro porque eu própria gosto da versão (até já a coloquei aqui), e porque a discussão me lembrou uma outra tida recentemente no Ideias Soltas do carlos a.a. em que defendi que a cultura não deve ser elitista, principalmente quando o nível de instrução do povo é baixo; que é preferível que as pessoas vejam, leiam, ouçam, ainda que de qualidade questionável a que se retraiam pela dificuldade de interpretação; que os níveis de exigência devem ser progressivos e coincidentes com a também progressiva educação para a arte (a maioria não concorda comigo...). Mas isto para dizer que parece que no Brasil, a tal versão, ou "aversão" como lhe chamam, não foi bem recebida por alguns Blogs.
Escreve o autor, falando de Closer: A música inicial é realmente inesquecível – Natalie Portman caminha por uma rua movimentada e fria (em todos os sentidos), enquanto Damien Rice, ao fundo, canta “Blower’s Daughter”, dizendo à plateia um melancólico “And so it is”, (...)perguntar a Ana Carolina, a Seu Jorge e a Simone: por que vocês fizeram isso? Mas que papagaiada: “ensinar nossos filhos/a escolher seus amores”. Ora, vão pentear macacos. Meu Deus, para mim já estava bom que na Jovem Guarda pegassem a música “Yellow Mellow” de Donovan e transformassem em “Caramelo”. Mas certamente Damien Rice não merecia isso. O trabalho de Ana Carolina, Seu Jorge e Simone, ao fazerem versões EM PORTUGUÊS de “Blower´s Daughter”, foi impedir a música de se tornar um clássico, já que suas nojentas versões foram tocadas exaustivamente durante as compras de Natal. Acho que é este o gelo fino da vida moderna: se tira um canção da alma e se atira no chiqueiro em questão de instantes.
oK, tem a sua razão, mas não deixo de concordar com um dos comentários, que diz :
Versões sempre serão piores que o original, é claro que não necessariamente tão ruins, mas uma comunidade que prega que Damien Rice não é para as massas é, no mínimo, pedante. O Povão que só verá Closer se um dia passar na Tela Quente da Globo, e mesmo assim nem deve agradar muito, e que não ouve/conhece Damien Rice mais por uma questão de oportunidade do que outra coisa, acaba chegando a ele através das versões toscas mas eficientes tocadas nas rádios. É como montagens de Shakespeare em escolas secundárias do interior. Devemos sempre ter em conta que é melhor ler banda desenhada e fotonovelas do que não ler nada. É muito fácil pra quem nasceu e vive nas capitais, teve acesso à Universidades e cursinhos de inglês se achar o máximo por conhecer e apreciar uma obra estrangeira em seu original, é o mesmo tipo de gente que arrota Thomas Mann e Beethoven, mas desdenha Jorge Amado e Dominguinhos.
É isso, é preciso não esquecer que há um país além das grandes cidades. E esse não está seguramente preparado para "originais", por muito que nos custe.



6 comments:
Há, portanto, que ir preparando esse país para os "originais", ao ritmo adequado, é certo, sem "elitismos", é verdade, mas também sem que isso sirva de desculpa para pimbalhadas e foleiradas que apenas têm como função deseducar, atrasar, alienar, perpetuar a ignorância e o mau gosto (sim, certos gostos podem e devem discutir-se...).
Nada do qe disse se refere à versão de "Blower's Daughter" referida no post: não a conheço, por isso calo-me - apesar de os autores me merecerem confiança.
Alien
sim, têm, mas as pessoas não têm culpa disso...
de qualquer modo, sempre acho que primeiro se deve chegar às pessoas e depois ensiná-las a refinar o gosto..:) se possível através da formação. "proibir" o mau também não sei se ajuda, nem se pode. chega-se lá pela formação, acho eu...
beijinhos
Se tudo o mencionado no post (por culpa minha) só conheço o Closer, que não é realmente um filme fácil.
Agora uma coisa é certa, para "originais" e "construção de públicos" poucas cidades estão preparadas quanto mais o interior.
Este teorema foi amplamente demonstrado por Rui Rio
Ora bem! Eu sou do Interior....tão a ver...aqueles locais onde ainda ha tempo...cresci por lá fui educada lá.
Interior que cada vez menos dizer ausencia de acesso...
Agora e comentando o post.... de preferencia original mas também nem sempre.
Mas discordo laminarmente da ultima frase do autor " adorar beethoven e desdenhar jorge amado" isso não é cultura ....será a versao snob (sans noblesse) de qualquer coisa?
jinhus
Eia, Cristina, tanta coisa junta... Vou tentar por partes:
1 - não há cultura elitista - cultura é cultura, é tudo o que nos deixaram;
2 - por deficiente educação o legado cultural cuja fruição requer bagagem prévia foi sendo "apropriado" por cada vez menos pessoas que formaram um grupo restricto e, por outro lado, esse mesmo grupo foi-se fechando e reivindicando a "sabedoria" de fruir só para eles (aqueles a que tu bem inseres na "elite" que referes;
3 - a única forma que encontro para devolver da sua fruição a todos é ela ser objecto de estudo na escola, desde tenra idade, onde as artes não sejam vistas como um apêndice, mas como imprescindíveis para a formação da identidade, tal como a língua e a matemática;
4 - como em qualquer outra área para lá das artes, devemos dar às crianças os clássicos originais, uma vez que elas não são burras e têm uma capacidade de assimilação muito superior a um adulta (como sabes melhor do que eu, a capacidade de assimilação ou de aprendizagem, se preferires, é das poucas coisas que vamos perdendo desde o dia em que nascemos);
5 - qualquer clássico original será sempre melhor do que um sucedâneo do mesmo, uma vez que tudo está datado e a criança deve enquadrar cada obra no seu tempo, para perceber a nossa evolução bem como para compreender, mais tarde, manifestações mais vanguardistas; começar por estas é que seria (e tem sido) um erro de palmatória;
6 - entretanto, para os adultos que não beneficiaram de uma educação deste tipo e que têm direito à fruição artística, pode-se perfeitamente (penso eu) encaminhá-los para manifestações menos complexas, embora sem ceder ao facilitismo e à falta de qualidade;
7 - tudo tem a ver com educação e com gestão cultural e, neste último particular aspecto, com uma gestão criteriosa do investimento e da receita em especial no que concerne aos equipamentos culturais - defendo que, sem nunca ceder na qualidade, deve-se incluir na programação manifestações artísticas mais comerciais de modo a que a receita de bilheteira consiga financiar outros projectos essenciais, mas fora do circuito comercial.
Esta última questão levar-nos-ia à mentalidade vigente (que escrevi noutro sítio) do divórcio entre os actores culturais e os "contabilistas" que saem das nossas escolas de economia. Enquanto não resolvermos esta tendência secular, enquanto os "contabilistas" não forem gestores para olhares para a cultura como um bem a investir e os actores culturaia não admitirem que têm um produto para comercializar e rentabilizar, será muito difícil chegarmos a bom porto.
Desculpa o lençol...
Beijinho
carlos
concordo com tudo o que dizes claro!, como não? educação claro. melhorar a qualidade da oferta sempre. entretanto, a pior coisa que se pode fazer é criticar, desdenhar daquilo que as pessoas ainda vão apreciando, afasta-as....mas, para quê dizer mais? já disseste tudo.
um beijo. (passaste bem as festas?)
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