02 Janeiro 2007

entregues os prémios, retomamos a programação habitual.


Hoje, li num blog brasileiro uma discussão interessante sobre a versão de Blower´s Daughter, de Ana carolina e Seu Jorge. Resolvi trazê-la por dois motivos: primeiro porque eu própria gosto da versão (até já a coloquei aqui), e porque a discussão me lembrou uma outra tida recentemente no Ideias Soltas do carlos a.a. em que defendi que a cultura não deve ser elitista, principalmente quando o nível de instrução do povo é baixo; que é preferível que as pessoas vejam, leiam, ouçam, ainda que de qualidade questionável a que se retraiam pela dificuldade de interpretação; que os níveis de exigência devem ser progressivos e coincidentes com a também progressiva educação para a arte (a maioria não concorda comigo...). Mas isto para dizer que parece que no Brasil, a tal versão, ou "aversão" como lhe chamam, não foi bem recebida por alguns Blogs.
Escreve o autor, falando de Closer:
A música inicial é realmente inesquecível – Natalie Portman caminha por uma rua movimentada e fria (em todos os sentidos), enquanto Damien Rice, ao fundo, canta “Blower’s Daughter”, dizendo à plateia um melancólico “And so it is”, (...)perguntar a Ana Carolina, a Seu Jorge e a Simone: por que vocês fizeram isso? Mas que papagaiada: “ensinar nossos filhos/a escolher seus amores”. Ora, vão pentear macacos. Meu Deus, para mim já estava bom que na Jovem Guarda pegassem a música “Yellow Mellow” de Donovan e transformassem em “Caramelo”. Mas certamente Damien Rice não merecia isso. O trabalho de Ana Carolina, Seu Jorge e Simone, ao fazerem versões EM PORTUGUÊS de “Blower´s Daughter”, foi impedir a música de se tornar um clássico, já que suas nojentas versões foram tocadas exaustivamente durante as compras de Natal. Acho que é este o gelo fino da vida moderna: se tira um canção da alma e se atira no chiqueiro em questão de instantes.
oK, tem a sua razão, mas não deixo de concordar com um dos comentários, que diz :

Versões sempre serão piores que o original, é claro que não necessariamente tão ruins, mas uma comunidade que prega que Damien Rice não é para as massas é, no mínimo, pedante. O Povão que só verá Closer se um dia passar na Tela Quente da Globo, e mesmo assim nem deve agradar muito, e que não ouve/conhece Damien Rice mais por uma questão de oportunidade do que outra coisa, acaba chegando a ele através das versões toscas mas eficientes tocadas nas rádios. É como montagens de Shakespeare em escolas secundárias do interior. Devemos sempre ter em conta que é melhor ler banda desenhada e fotonovelas do que não ler nada. É muito fácil pra quem nasceu e vive nas capitais, teve acesso à Universidades e cursinhos de inglês se achar o máximo por conhecer e apreciar uma obra estrangeira em seu original, é o mesmo tipo de gente que arrota Thomas Mann e Beethoven, mas desdenha Jorge Amado e Dominguinhos.

É isso, é preciso não esquecer que há um país além das grandes cidades. E esse não está seguramente preparado para "originais", por muito que nos custe.

6 comments:

Alien8 disse...

Há, portanto, que ir preparando esse país para os "originais", ao ritmo adequado, é certo, sem "elitismos", é verdade, mas também sem que isso sirva de desculpa para pimbalhadas e foleiradas que apenas têm como função deseducar, atrasar, alienar, perpetuar a ignorância e o mau gosto (sim, certos gostos podem e devem discutir-se...).

Nada do qe disse se refere à versão de "Blower's Daughter" referida no post: não a conheço, por isso calo-me - apesar de os autores me merecerem confiança.

Cristina disse...

Alien

sim, têm, mas as pessoas não têm culpa disso...

de qualquer modo, sempre acho que primeiro se deve chegar às pessoas e depois ensiná-las a refinar o gosto..:) se possível através da formação. "proibir" o mau também não sei se ajuda, nem se pode. chega-se lá pela formação, acho eu...

beijinhos

Fado Alexandrino disse...

Se tudo o mencionado no post (por culpa minha) só conheço o Closer, que não é realmente um filme fácil.
Agora uma coisa é certa, para "originais" e "construção de públicos" poucas cidades estão preparadas quanto mais o interior.

Este teorema foi amplamente demonstrado por Rui Rio

Cila disse...

Ora bem! Eu sou do Interior....tão a ver...aqueles locais onde ainda ha tempo...cresci por lá fui educada lá.

Interior que cada vez menos dizer ausencia de acesso...

Agora e comentando o post.... de preferencia original mas também nem sempre.
Mas discordo laminarmente da ultima frase do autor " adorar beethoven e desdenhar jorge amado" isso não é cultura ....será a versao snob (sans noblesse) de qualquer coisa?
jinhus

carlos a.a. disse...

Eia, Cristina, tanta coisa junta... Vou tentar por partes:
1 - não há cultura elitista - cultura é cultura, é tudo o que nos deixaram;

2 - por deficiente educação o legado cultural cuja fruição requer bagagem prévia foi sendo "apropriado" por cada vez menos pessoas que formaram um grupo restricto e, por outro lado, esse mesmo grupo foi-se fechando e reivindicando a "sabedoria" de fruir só para eles (aqueles a que tu bem inseres na "elite" que referes;
3 - a única forma que encontro para devolver da sua fruição a todos é ela ser objecto de estudo na escola, desde tenra idade, onde as artes não sejam vistas como um apêndice, mas como imprescindíveis para a formação da identidade, tal como a língua e a matemática;
4 - como em qualquer outra área para lá das artes, devemos dar às crianças os clássicos originais, uma vez que elas não são burras e têm uma capacidade de assimilação muito superior a um adulta (como sabes melhor do que eu, a capacidade de assimilação ou de aprendizagem, se preferires, é das poucas coisas que vamos perdendo desde o dia em que nascemos);
5 - qualquer clássico original será sempre melhor do que um sucedâneo do mesmo, uma vez que tudo está datado e a criança deve enquadrar cada obra no seu tempo, para perceber a nossa evolução bem como para compreender, mais tarde, manifestações mais vanguardistas; começar por estas é que seria (e tem sido) um erro de palmatória;
6 - entretanto, para os adultos que não beneficiaram de uma educação deste tipo e que têm direito à fruição artística, pode-se perfeitamente (penso eu) encaminhá-los para manifestações menos complexas, embora sem ceder ao facilitismo e à falta de qualidade;
7 - tudo tem a ver com educação e com gestão cultural e, neste último particular aspecto, com uma gestão criteriosa do investimento e da receita em especial no que concerne aos equipamentos culturais - defendo que, sem nunca ceder na qualidade, deve-se incluir na programação manifestações artísticas mais comerciais de modo a que a receita de bilheteira consiga financiar outros projectos essenciais, mas fora do circuito comercial.

Esta última questão levar-nos-ia à mentalidade vigente (que escrevi noutro sítio) do divórcio entre os actores culturais e os "contabilistas" que saem das nossas escolas de economia. Enquanto não resolvermos esta tendência secular, enquanto os "contabilistas" não forem gestores para olhares para a cultura como um bem a investir e os actores culturaia não admitirem que têm um produto para comercializar e rentabilizar, será muito difícil chegarmos a bom porto.

Desculpa o lençol...

Beijinho

Cristina disse...

carlos

concordo com tudo o que dizes claro!, como não? educação claro. melhorar a qualidade da oferta sempre. entretanto, a pior coisa que se pode fazer é criticar, desdenhar daquilo que as pessoas ainda vão apreciando, afasta-as....mas, para quê dizer mais? já disseste tudo.

um beijo. (passaste bem as festas?)